
Zambézia
(Jan 2013, publicado no semanário O País)
A cinematografia sul-africana faz uma incursão bem-sucedida pelo cinema de animação, mostrando que é possível produzir fora dos grandes circuitos americanos e com orçamentos bem mais modestos filmes eficazes
A animação tem-se revelado um valor seguro, pelo que não é de estranhar que se venha tornando uma porta para que países ou estúdios independentes dos grandes circuitos de Hollywood (ou conexos) sejam, cada vez mais, tentados em utilizá-la como uma porta de entrada no grande circo da distribuição cinematográfica dominada pelos gigantes americanos.
A África do Sul já tinha esboçado umas tentativas, ainda que sem grande sucesso de penetrar os tais circuitos. Em 2010 fez a sua estreia numa longa-metragem de animação com Jock of Bushvald, que francamente não deixou uma impressão minimamente positiva. Voltou à carga em 2011 com Lion of Judah, também sem brilho especial e conseguiu, finalmente, em 2012, um filme muito aceitável, Zambézia, que marca igualmente a estreia da produtora sul-africana Triggerfish e de Wayne Thornley, que trabalhou como actor no filme Consequence (2003) de Anthony Hickox, na realização.
Uma técnica narrativa muito boa, uma vibrante banda sonora, um elenco vocal à altura, emprestam a Zambézia uma qualidade assinalável, que pouco fica a dever às grandes produções no género. A estória, embora assente numa estrutura muito simples, é interessante e apresenta um desfecho deveras adequado ao seu público principal: as crianças. Zambézia, que vai buscar o nome a terras situadas em Moçambique e que, no filme, adquirem um estatuto mítico, é um filme de animação que se parece talvez em demasia com referências do género como o Rei Leão ou a Lenda dos Guardiões mas que também dispôs de um orçamento consideravelmente inferior. Custou apenas USD 20 milhões, o que, nos dias que correm, é uma ninharia quando se pensa nos vultuosos investimentos efectuados na animação. Basta dizer que Rio, por exemplo, custou USD 90 milhões. É claro que Zambézia não apresenta os requintes técnicos dos produtos saídos da Pixar ou da DreamWorks mas, lá por isso, não deixa de oferecer personagens sólidas e bem construídas, uma cor alegre, extremamente apelativa e uma cadência narrativa que atrai os mais novos. O que significa que a cinematografia sul-africana de animação parece ter encontrado o seu caminho.
O protagonista da estória é um jovem falcão, Kai, que vive isolado na África do Sul e que um dia decide escapar à sobra tutelar do seu pai e voar até à Zambézia, terra de sonhos para os pássaros, onde (quase) todos eles são aceites e vivem em harmonia. E é neste paraíso das aves, guardado pelos pássaros de elite de todo o continente africano, 'Os Furacões', que vai conhecer novos desafios: vai não só perceber que viver em comunidade não é tão fácil quanto imaginava como a própria cidade que passa a habitar é colocada perante uma ameaça. Kai acaba por descobrir a verdade sobre as suas origens e que a vida só vale a pena quando é partilhada com aqueles que amamos.
Zambézia, enfim, é um voo eficaz da cinematografia sul-africana sobre o género animação, que tira partido de uma narrativa segura, tendo sempre como pano de fundo a beleza dos grandes espaços africanos. E que, acima de tudo, não decepcionará aqueles a quem primordialmente se dirige: os mais novos.