Budapeste

(Dez 2009, publicado no semanário O País) 

No filme baseado na obra de Chico Buarque cruzam-se vários territórios: do corpo, da cidade da língua. José Costa, um "escritor fantasma" espreitas-lhes os limites e, em busca do exílio, toca uma fronteira intransponível, a da língua

Antes de ver Budapeste pusemo-nos a vasculhar a net à procura de informação sobre o filme. Encontrámos umas críticas publicadas na imprensa brasileira, o press-book facultado no site oficial e uma entrevista ao realizador, Walter Carvalho. O filme transcreve para a linguagem cinematográfica, o romance homónimo de Chico Buarque de Hollanda, músico, poeta e romancista, cuja obra é, muito provavelmente, uma das mais interessantes no universo contemporâneo da língua portuguesa. Na entrevista, Walter Carvalho revela que foi exactamente o medo suscitado pela dificuldade de transpor a complexidade do livro para o cinema que o levou a aceitar realizar o filme. O desafio maior, confessa, consistia em fazê-lo sem danificar a palavra de Chico Buarque.

Budapeste, o filme, fala de vários territórios: o território do corpo, o território da língua, o território da cidade. E também das fugas que esses territórios convocam. Por isso, o personagem central, José Costa (Leonardo Medeiros), um ghost writer, ou seja, um escritor anónimo que escreve para que outros assinem, reparte-se por duas cidades (Rio de Janeiro e Budapeste), duas línguas (a portuguesa e a húngara) e duas mulheres (a sua esposa Wanda, uma apresentadora televisiva que busca obsessivamente a popularidade e Kriska, a húngara por quem se apaixona. Antes: por cuja língua natal se apaixona.

Foi parar a Budapeste por acaso, em resultado de uma aterragem forçada do voo que o levava de volta ao Rio de Janeiro, após ter participado num congresso de ghost writers em Istambul. Descobre então uma cidade "amarela", e não uma urbe desenhada a tons cinza, como se anunciam, no imaginário corrente, as cidades do leste europeu, e a língua húngara, "a única que o diabo respeita". No Rio esperam-no a rotina, os afazeres da agência de escritores "sombra", a vida sensaborona de casado, onde só sobressaem o atraso do filho e as frívolas ambições da mulher, que acaba, ainda por cima, por se deslumbrar com um escritor alemão que está na berra e cujo livro fora afinal...escrito por Costa. Há sempre um dia em que um tipo se farta de permanecer na sombra, de fazer com a sua escrita o sucesso de idiotas pedantes. José Costa está e quer estar cansado da vida que tem. Budapeste perpassa-lhe a vigília e o sono como uma visão onírica, um lugar mítico. O regresso à capital húngara é inevitável.

Os lugares são muito o que neles vemos, o sentido que lhes atribuímos e a Budapeste "amarela" atravessada pelo Danúbio por onde passa um barco transportando pedaços de uma estátua de Lenine (uma cena de uma beleza fantástica), são um devaneio maravilhoso de José Costa, escritor e brasileiro. Um exílio imaginado, poético.

Costa reconstitui, pacientemente, a sua vida em Budapeste, na companhia de Kriska. Só que agora é a língua húngara que serve de matéria-prima ao seu talento de ghost writer. Ao tentar reinventar-se percebe que podemos espreitar todos os territórios mas não dissipar todas as fronteiras. Uma delas respeita à língua, ao modo como esta reflecte a alma. Costa, nas suas derivas, já utilizara o corpo feminino como um mapa de palavras. A língua é um mapa de sentimentos. Daí que o livro de poemas que escreve em húngaro não convença Kriska e o filho desta. Expulso da Hungria por falta de visto e tomado pela saudade é levado, em pleno Rio, a ouvir a canção "feijoada completa" em húngaro - soa inevitavelmente mal. Mas, por fim, Costa decide sair da sombra. Assina Budapeste e conquista o reconhecimento que lhe permite regressar à Hungria envolto em optimismo tropical. Buarque até se despede dele no aeroporto. Mais um sonho?

Budapeste é um filme encantado, sensual, aberto, que nos desperta os sentidos. Chico Buarque converte palavras em imagens. Walter Carvalho procura planos que enunciem palavras. Nunca se perde nos meandros do guião, quando uma sequência está a chegar ao ponto de saturação surge de imediato uma outra que recupera o espectador para a narrativa. A fotografia é magnífica, a banda sonora excelente e as interpretações, sobretudo as de Leonardo Medeiros, que tem de suportar longos diálogos numa língua que desconhece, e de Gabriella Hámori, Kriska, a intérprete e professora que encarna a sua paixão húngara, situam-se num registo elevado.

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