
Olhos Grandes
(Mar 2015, publicado no semanário O País)
Tim Burton retoma o seu universo peculiar, agora com menos meios, e traz para o grande ecrã um caso que apaixonou os Estados Unidos, o da pintora Margaret Keane, que deixou que o marido usurpasse a sua obra
A estória real em que assenta o último filme de Tim Burton (de 'Eduardo Mãos de Tesoura', 'Ed Wood', 'Alice no País das Maravilhas', 'Batman') é extraordinária e, à partida, assenta à medida no universo do realizador.
Nos anos de 1950 Margaret Keane (Amy Adams) era uma mãe solteira que, desde que deixara o marido e rumara para São Francisco (EUA), pintava quadros de criança de olhos arrepiantes, grandes, profundos e tristes. Consente que o marido, Walter (Christoph Waltz), um pretenso artista frustrado, assuma publicamente a autoria das obras. O casal fica milionário. Dez anos depois Margaret, cuja relação com Walter se vai deteriorando, decide revelar a farsa.
Tudo na estória insinua intensidade dramática. Desde os limites impostos pelos preconceitos à condição feminina de Margaret à personalidade de Walter, alguém com um talento especial para se promover e para mentir. O modo como ainda se via, à época, o papel da mulher deixa a interrogação: se Walter não tivesse usurpado a autoria dos quadros estes teriam alcançado a mesma popularidade? A própria renúncia de Keane é outro drama: como sobrevive um autor que aceita que seja outro a assumir a sua obra?
E, no entanto, Tim Burton desenvolve todos estes dramas com uma candura excepcional. A narrativa quase se confunde com uma reportagem do caso, sem que os personagens sejam 'espremidos' na sua complexa relação, entre eles e com o mundo. Há uma notável economia de emoções. Dir-se-á que corresponde muito à contenção financeira a que teve de se sujeitar este primeiro 'filme independente' do realizador. Burton desta vez não conta com o apoio dos grandes estúdios e director e argumentistas foram pagos pela tabela do sindicato e terão participação nos lucros, se o filme os der. A equipa técnica e os actores fizeram prevalecer a sua amizade a Burton, baixando muito os seus 'cachets'. Para poupar dinheiro o filme foi rodado no Canadá, em Vancouver.
Se os custos explicarão algumas das opções não explicam tudo. Tim Burton continua a explorar o seu universo, em que a fantasia, a cor, a recriação de época, uma ingenuidade que nunca se conjuga com a violência porque a tensão nunca sobe a esse ponto. É tudo, afinal de contas, um recreio. Numa cena em que o casal entra em ruptura não há qualquer agressão, o marido limita-se a riscar fósforos em direcção à esposa. Para Burton chega.
A fantasia delirante e lírica de Burton está bem expressa na cena passada no supermercado em que Keane, perturbada pela opressão do marido e a presença de quadros seus, começa a ver todos que a rodeiam com olhos grandes. No fundo, o realizador olha para os quadros de Keane e para o drama que envolve a pintora com uns enormes olhos.
Dois nomes de primeiro plano assumem os papéis principais. Amy Adams tem uma excelente actuação, muito rigorosa, compondo a personagem da mulher frágil, hesitante, ingénua, que um dia se rebela, muito por força das mentiras do marido. Christoph Waltz, que se distingue pelo seu talento de fazer de 'mau da fita', cria um Walter burlão que, denunciado, se torna patético. Muitos poderão decepcionar-se por Tim Burton ter sido tão 'ligeiro' a pegar no caso. Mas ninguém poderá dizer que este não é o universo de sempre do realizador. Que nem precisa de aprofundar muito a estória e os seus protagonistas para nos dar uma narrativa que prende do princípio ao fim.
No ano da graça de 2015 os Óscares foram para...
O Óscar 2015 para o melhor filme, atribuído pelos cerca de sete mil jurados da Academia de Hollywood, foi para 'Birdman', a melhor escolha possível entre os mais fortes candidatos ao prémio. Felizmente 'Boyhood', quanto a nós uma imbecilidade paciente, foi derrotado.
'Birdman', que conta a estória do actor que tenta recuperar a sua carreira, um filme assinado pelo realizador mexicano Alejandro González Iñárritu, teve como concorrentes, além de 'Boyhood', 'Sniper Americano', um filme de Clint Eastwood, 'Grand Budapest Hotel', também, de facto, um dos melhores filmes desta 87ª edição dos óscares, 'A Teoria de Tudo', uma obra sobre a prodigiosa vida do cientista Stephen Hawking e 'O Jogo da Imitação', que recorda a aventura fantástica de um matemático na decifração dos códigos nazis, a qual o levou à criação do primeiro computador.
A vitória de 'Birdman' é também o triunfo do novo cinema mexicano e, em particular, da cinematogarfia de Iñárritu, que privilegia, tirando-nos o fôlego, o plano-sequência, ou a ilusão de um plano interminável em que todo o filme se desenrola, uma espécie de 'tempo real ininterrupto'. Uma consagração justa, que preferíamos tivesse ido para 'Babel', um filme de Iñárritu superior a 'Birdman', mas nesse ano (2007) estava também em jogo Martin Scorsese... Os filmes nomeados nesta edição dos óscares sendo bons estão longe de ser excepcionais. Este não foi o melhor ano dos óscares.
O Óscar de melhor actor foi para o britânico Eddie Redmayne pelo seu papel, soberbo, com Hawking e também, justissimamente, o de melhor actriz para Julianne Moore, pelo seu papel de vítima da doença de alzheimer em 'O Meu Nome é Alice'.