
O Senhor Turner
(Maio 2015, publicado no semanário O País)
Turner marcou o romantismo na pintura, com as suas soberbas paisagens, mas foi também um dos grandes percursores da pintura do Séc. XX, principalmente o impressionismo mas também o abstracionismo. 'Mr. Turner', do realizador Mike Leight, dá-nos a obra e o homem com um rigor histórico, uma beleza fotográfica e uma riqueza interpretativa excepcionais. Vale a pena conhecer este 'Mr. Turner'
Mr. Turner incide sobre a última fase da vida do pintor William Turner, um dos expoentes do romantismo britânico e considerado por muitos como um dos principais percursores da pintura contemporânea, face à importância que deu à luz e à cor - o que influenciaria, por exemplo, a corrente impressionista.
Joseph Mallord William Turner nasceu em Londres no último quartel do Séc. XVIII. Vindo de uma família modesta, cedo mostrou o seu talento excepcional e conseguiu entrar, em 1789, na Real Academia de Artes de Londres. A sua técnica levou-o a ser aceite, passados poucos anos, como membro da academia. Com ele, a paisagem romântica atingiu os seus píncaros. O pintor fixou-se na magia que é o reflexo da luz nas cores, a paixão da sua vida. 'O sol é Deus' foi a sua última expressão antes de morrer.
Com uma personalidade um tanto solitária, embora esforçando-se por se comportar adequadamente na vida social, e com uma escala de valores muito particular, Turner procurou captar persistentemente, obsessivamente, o mistério da luz e da cor. Foi fortemente influenciado pelos paisagistas holandeses, muito em voga na sua época, tendo-se deslocado especialmente a Amesterdão (Holanda).
Numa das suas últimas fases chegou mesmo a abandonar a forma, abrindo caminho à pintura abstracta do Séc. XX. É um prazer conhecer melhor um personagem como William Turner, a ele e à sua obra. E o realizador e argumentista Mike Leight - de 'Vera Drake' (2004) e 'Secret Lies' (1966) - e o actor Timothy Spall, no papel de 'Mr. Turner', conseguem dar-nos com grande rigor biográfico, a obra e a vida do pintor. Uma cinebiografia que nos trás a atmosfera que envolveu a vida de Turner, a sua personalidade e que procura, na sua bela fotografia (assinada por Dick Pope), transportar a beleza das telas do biografado para a tela das salas de cinema.
O filme centra-se muito nas obras de Turner, nas suas pinceladas de génio, por vezes sobrepondo-as aos diálogos. As câmaras são frequentemente desviadas para os quadros. Mas também não se exime em revelar-nos a complexa e introvertida personalidade do pintor que, muitas vezes, substituía as palavras por grunhidos. Ficamos a conhecer o homem que está por detrás de algumas das maiores obras da história da pintura mundial. Desde as suas ambíguas relações com uma vaga governanta ao desconforto que sentia entre pares e rivais (Turner em sociedade era como um elefante numa loja de louça) e também o modo como se conseguia, afinal, emocionalmente entregar. Mas sempre apenas um homem por trás de uma obra gigante, a fragilidade humana originando a transcendência, quadros em que a luminosidade pinta a natureza. E há um pormenor notável, em que Turner, no meio da preparação de uma exposição, dá um toque surpreendente num dos seus quadros. O que, de início, parece destruidor para uma obra que parecia acabada, acaba por revelar-se genial. Num repente, o pintor aborda a tela exposta e inventa uma boia vermelha, que emerge dos tons carregados de uma paisagem marítima tempestuosa. Transpiração e inspiração, os velhos refrões de toda a arte.
O filme de Leight tem a preocupação de respeitar a verdade histórica sem medo de ferir preconceitos (Turner tem a sua visão muito peculiar sobre o matrimónio, família, amor e perda), dando-nos as diferentes facetas de um homem que se apaixonou pela pintura e que, para captar a luz e a tonalidade certas para os seus quadros, não hesitou em fazer-se amarrar a um mastro durante uma tempestade. Turner era fascinado pela magia da luz e da cor que faz o mundo e o filme de Leight consegue envolver-nos nesse fascínio.
Um filme rigoroso, bem feito, excelentemente interpretado e bem montado. Daí que as quase duas horas e meias de exibição nem se tornem penosas face a uma narrativa que, no seu rigor, nos prende e nos dá a ver Turner mas, sobretudo, nos permite ver o mundo através de Turner. 'Mr. Turner' acumulou prémios em 2014, entre eles os destinados ao melhor actor (Timothy Spall) no Festival de Cannes e ao melhor realizador e melhor actor no Festival de Sevilha. O Círculo de Críticos de Nova Iorque elegeram Spall como o melhor actor pela sua interpretação de 'Mr. Turner'. Um filme que, merecidamente, vai continuar a amealhar distinções este ano.