O que muda com as alterações climáticas

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) considera que "o aquecimento do sistema climático mundial é inquestionável". "Desde a década de 1950, têm-se vindo a observar inúmeras mudanças sem precedentes nas últimas dezenas ou mesmo milhares de anos. A atmosfera e os oceanos aqueceram, a quantidade de neve e de gelo diminuiu, o nível médio das águas do mar subiu e a concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera aumentou", refere na síntese do seu quinto relatório de avaliação de 2013.
Como reagir às alterações climáticas? Passa por, desde logo, reforçar a capacidade de previsão, através da sofisticação meteorológica (leia adiante entrevista com o presidente do INAM). E como combatê-las? Para a maioria dos cientistas haverá que reduzir a pegada humana, desde a emissão de carbono e de outros gases que compõem o chamado efeito de estufa como o metano, até à redução da produção de plástico e do consumo de carne, designadamente de carne de vaca.
Embora haja um largo consenso entre organismos multinacionais como a ONU ou a União Europeia e a maioria dos cientistas, de que a contribuição humana é decisiva para a alteração do clima, a tese não é partilhada pela totalidade dos cientistas. O aquecimento é um facto e as perturbações que provoca no ambiente são drásticas. Mas não há unanimidade quanto à sua origem, embora a balança das opiniões se incline para os que apontam o dedo à acção humana.
A verdade é que a poluição, o clima e a expansão demográfica nos colocam perante cenários aterradores. A acelerada extinção das espécies animais, aos milhares, a misteriosa redução da polinização dos campos pelas abelhas, indispensável à vida como a conhecemos, coloca problemas muito sérios. Em Abril deste ano, a conferência sobre biodiversidade, que reuniu em Paris, França, cientistas e diplomatas de mais de 130 países do mundo, reconheceu que a destruição da biodiversidade e dos serviços que o ecossistema presta à economia ameaçam tanto as nossas sociedades como as alterações climáticas. Com a aceleração da extinção das espécies, encontram-se entre 500 mil a um milhão de espécies em elevado risco de extinção, muitas delas nas próximas décadas. Poderemos estar perante o início da sexta "extinção em massa", a primeira desde o surgimento do homem no planeta.
Mesmo admitindo uma contribuição importante das emissões de dióxido de carbono 'orgânicas', ou seja, produto da actividade humana, como a utilização de carvão e hidrocarbonetos, há outros factores a densificar o efeito de estufa. No início de Agosto deste ano, um grupo de cientistas, apoiado pelas Nações Unidas, publicou um relatório sobre gestão do território e sustentabilidade, clima e mudanças climáticas, o qual revela que a agricultura, a silvicultura e outras utilizações que são feitas da terra representam 23% do total das emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem entre 2007 e 2016. O sector da pecuária é apontado como o principal emissor de gases de efeito estufa, consumindo um décimo da água doce do mundo e causando o desmatamento em grande escala.
O ALARME
As previsões e as análises são frequentemente revistas, ou seja, o trabalho sobre as causas e efeitos da modificação do meio ambiente encontra-se em sistemático progresso. Quais, em concreto, as razões de alarme? A década de 1990 foi a mais quente dos últimos mil anos. Já este ano, Fevereiro foi marcado por temperaturas extremas, Março continuou com temperaturas 1,3 graus acima da média e África foi atingida por uma das maiores catástrofes dos últimos anos, a provocada pelo Idai, um ciclone acompanhado de chuvas torrenciais, a deixar um rasto de milhares de pessoas desalojadas e centenas de mortes. Abril e Maio atingiram igualmente temperaturas acima da média e Junho e Julho bateram novos recordes quanto à subida da temperatura média desde que há registo à escala global. Em Julho, os islandeses despediram-se do glaciar "Okjokull", extinto em 2014, colocando um memorial no seu lugar.
A temperatura média à superfície subiu quase 0,8% nos últimos 120 anos, no séc. XX o nível do mar subiu quase 20 centímetros e o degelo do Ártico prossegue. Em 2008, tornou-se possível passar do Atlântico para o Pacífico pelo Ártico. Em 2009 foi aberta a rota pelo lado da Sibéria e, depois, pelo Canadá. Nas regiões mais setentrionais do Canadá os ursos vêem escassear a sua fonte alimentar, o salmão.
O contributo das actividades humanas para o aumento da temperatura reflecte ainda a dinâmica da Revolução Industrial e a evolução dos padrões de consumo, numa palavra, o modelo económico em que o mundo vem assentando a sua evolução. As alterações introduzidas pela actividade humana no meio ambiente e a explosão demográfica põem em causa o modelo de desenvolvimento seguido desde a revolução industrial e a sua matriz energética. Num momento em que uma parte da população deixou o grau de pobreza extrema e há mais bocas para alimentar a mudança ambiental põe em causa sectores como a agricultura e a pecuária.
A China é o país que mais carbono lança na atmosfera. E também é aquele que mais projectos de reflorestação levou a cabo. Há quem aponte a 'nova rota da seda' como um caminho de 'carbonização', com a abertura de estradas, túneis e electrificação. Os Estados Unidos aguardam o momento em que se concretize a sua saída do Acordo de Paris, um pacto estabelecido entre os principais países desenvolvidos e em desenvolvimento, colocando limites à emissão de carbono para a atmosfera. Os países em desenvolvimento, que praticamente nada contribuíram para o 'aquecimento global' não estão obviamente inclinados em abdicar da exploração dos seus recursos naturais. Será muito difícil que as iniciativas de emergência das Nações Unidas conduzam a consensos em matéria climática.
Há, na comunidade científica, argumentos que desvalorizam o impacto da emissão de carbono pelas actividades humanas no aumento da temperatura, assinalando que a concentração de carbono foi maior no século passado. O homem lança 7 mil milhões de toneladas de anidrido carbónico na atmosfera, muito pouco comparado com as 200 mil milhões de toneladas provenientes de fluxos naturais, o que se traduz numa proporção demasiado pequena para influenciar o efeito estufa, referem cientistas que discordam da explicação mais generalizada para o aquecimento do planeta. Os 'cépticos' assinalam ainda que os períodos de observação são muito curtos face aos ciclos de alterações climáticas por que a Terra tem passado.
O debate sobre o clima é muito vivo nos países mais desenvolvidos, onde a pressão dos media e da opinião pública conduz a um esforço de alterações na matriz energética e nos padrões de consumo. O bom ambiente, a preservação da biodiversidade, é um trunfo de peso na captação de investimento. O Brasil apanhou um susto com a mediatização dos fogos da Amazónia (como pode ler nesta edição), os estragos na reputação são grandes e o país perde o estatuto de um dos mais avançados em biodiversidade. Oferecer uma boa pegada ambiental tornou-se para os países e para as empresas um novo factor competitivo.
O QUE SÃO ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
As alterações que ocorrem no clima geral do planeta Terra são verificadas nos registos científicos através dos valores médios ou dos desvios desses valores apurados em determinado período.
As mudanças no clima decorrem de vários factores meteorológicos como, por exemplo, as temperaturas máximas e mínimas, os índices pluviométricos (chuvas), a temperatura dos oceanos, nebulosidade, humidade relativa do ar.
Os climatologistas observaram que, nas últimas décadas, ocorreu um significativo aumento da temperatura global, gerando o degelo do Ártico e a subida do nível de água dos oceanos. Para o fenómeno contribuiu o aumento de poluição no ar e a influência da pegada humana continua a ser objecto de debate e investigação. A Terra já registou temperaturas médias superiores às actuais. Nos últimos 800 mil anos verificaram-se grandes variações, por exemplo, nos níveis de carbono na atmosfera e no nível das águas dos mares. As alterações climáticas não constituem, pois, uma novidade na vida do planeta verde. Mais. Nos últimos 400 mil anos o clima global passou por 4 ciclos distintos, dois glaciais e dois interglaciais. Atravessamos um período interglacial em que a temperatura média se encontra abaixo do último período idêntico, ocorrido há 120 mil anos. Mas acontece que nas duas últimas décadas está a aquecer a um ritmo 50 vezes mais acelerado do que o ciclo natural glacial-interglacial. A temperatura média global à superfície subiu quase 0,8°C nos últimos 120 anos, o nível do mar subiu quase 20 centímetros na média global durante o Século XX, a área coberta com neve está a diminuir e as geleiras estão a derreter.
Do ponto de vista científico a melhor explicação para o aquecimento verificado nos últimos 50 anos é a acumulação de gases de efeito estufa. O efeito estufa assegura a temperatura de que a vida na Terra carece. Caso não existisse, a temperatura da superfície da Terra seria 33 graus mais fria. A participação do carbono é pequena face à do vapor de água, e ainda mais pequena a do metano, mas registam um crescimento elevado. Para a maior parte da comunidade científica os dados mostram que o excesso de dióxido de carbono, metano, o óxido nitroso e outros gases têm a pegada humana. É certo que as plantas retêm carbono, mas mesmo essa absorção tem limites.
O intervalo provável para o aumento de temperatura, segundo as projecções do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas, IPCC, vai de 1,8 graus centígrados a 4,2 graus centígrados, um intervalo largo, mas traduzindo sempre um aumento com impacto significativo, ou mesmo decisivo, no meio ambiente para o que as sociedades e as economias têm de se preparar.
O EFEITO ESTUFA
O efeito estufa natural é necessário à vida na Terra. Se não existisse a temperatura da superfície da Terra seria 33 graus mais fria e possivelmente só haveria vida no fundo dos oceanos e muito diferente das actuais formas de vida. Eis os principais gases que o compõem e a influência do seu crescimento no fenómeno:
Vapor de água 20 graus s/cresc
Dióxido de carbono 7 graus 36%
Ozónio 2 a 3 graus s/cresc
Óxido Nitroso 1,4 graus 18%
Metano 0,8 graus 150%
Outros gases 0,6 graus s/cresc
(publicado em Exame Moçambique em Set de 2019)