O Impossível

(Ago 2015, publicado no semanário O País)    

O Impossível não se limita a ser um filme catástrofe, narra-nos o drama de uma família que, apanhada por um desastre natural, se nos vai revelando a sua essência, fazendo-nos acompanhá-la nessa terrível viagem

 A curiosidade irreprimível que nos atrai em O Impossível, e que é suscitada pelo trailer do filme, passado e repassado como anúncio televisivo, não é defraudada. A cena inicial é esmagadora, realmente esmagadora, pois a fúria avassaladora daquela onda gigante, que protagonizou um dos maiores desastres naturais de que há memória, arrasou tudo, converteu, em poucos instantes, um cenário inofensivo, em que tudo está no seu (no caso maravilhoso), lugar, ora em sucata mortífera, ora em jangada de salvação. Os efeitos especiais são eximiamente manobrados, as imagens são impressionantes, as cenas dolorosas, insuportáveis, perpassam o nosso olhar, como a cena do bébé que se encontra dentro de um carro que é levado pelas ondas. De súbito a ordem das coisas vira absoluto caos. O Impossível cumpre, logo no seu início, a sua associação ao género filme-catástrofe.

Mas não se fica por aqui, nem o seu interesse reside na capacidade com que imprime um impressionante realismo à catástrofe protagonizada pelo tsunami que, na fatídica manhã de 26 de Dezembro de 2004, devastou a costa da Tailândia deixando um rasto de 226 mil mortos.

Se o realizador espanhol Juan Antonio Bayona nos tivesse apenas dado uma catástrofe ficcionada para parecer 'documental' ou um thriller bem esgalhado sobre uma ameaça impensável mas possível, correria o risco de, por melhor que fosse a narrativa e mais espectaculares os efeitos especiais, tornar-se repetitivo e de não conseguir que a narrativa evitasse ser entediante. Mas preferiu, a propósito de uma catástrofe, narrar um drama. E consegue fazê-lo com mestria, servido por um naipe de bons actores.

O Impossível mostra-nos que, devido a um golpe da natureza ou outro qualquer, num instante tudo muda e que essa mudança, após o seu impacto inicial, brutal, diluviano, traz, nas suas consequências, à superfície (no caso à superfície das águas pejadas de destroços) a nossa fragilidade e também a nossa força e a nossa resistência, a nossa batalha pela sobrevivência e a nossa obstinação (ou heroísmo) em não desistir de quem amamos. A catástrofe é um gigantesco e terrível cenário para o drama humano.

O casal Mary e Henry e os seus três filhos (todos com nomes biblícos), uma família espanhola unida, vão passar umas paradisíacas férias de Natal a uma ilha tailandesa. Deparam-se com o primeiro contratempo: o quarto que haviam reservado, num andar alto, não estava, afinal, disponível mas acabam por ser recompensados ao atribuirem-lhes um outro quarto no rés-do-chão mas com defronte para o mar. Mas o segundo e medonho contratempo ainda está para vir. Logo no dia seguinte a um Natal particularmente feliz. O imprevisto gera então O Impossível. A realização de Bayona e o argumento de Sergio G. Sánchez envolvem-nos, a partir daqui, na narração do destino trágico da família dividida em dois grupos: a mãe e o filho mais velho travam uma luta desesperada para sobreviver, enquanto, algures, o pai e as duas crianças menores não têm a menor ideia se os outros dois estão vivos. Este desespero, esta força e esta angústia geram sentimentos dramáticos em relação à separação e dá-nos a conhecer os personagens. Naomi Watts e Ewan McGregor (que interpretam o casal) e Tom Holland, que incarna o filho mais velho, obtêm desempenhos de primeira grandeza. Em particular, não admira que Naomi Watts tenha sido indicada para um Globo de Ouro.

Ao envolver-nos tão intensamente, e apesar de alguns pormenores de gosto muito duvidoso, Bayona leva-nos para dentro do filme, para o lado dos seus personagens e essa é uma das maiores magias do cinema.   



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