O Delator

(Out 2009, publicado no semanário O País)    

Sodebergh está de volta com um exercício fabuloso sobre a verdade e a mentira, o qual tem por base um escândalo que rebentou em 1993, envolvendo uma das maiores empresas americanas e a personalidade "bipolar" de um dos seus gestores

A capacidade que as grandes empresas têm para manipular o mercado e viciar a concorrência, numa palavra, mentir, pode igualar-se à extraordinária destreza com que uma mente considerada "bipolar" se reparte entre a ambição mitómana e a colecta de chorudos subornos. Mark Whitacre (Matt Damon), químico de formação, foi um quadro superior na Archer Daniels Midland (ADM), uma empresa da indústria agro-alimentar de grande relevo na economia americana. Tornou-se conhecido quando, em 1993, os cabeçalhos dos jornais o colocaram no centro de um enorme escândalo envolvendo a concertação de preços entre grandes empresas a nível internacional.

Steven Soderbergh, aquele que é actualmente um dos mais, senão mesmo o mais, estimulante dos realizadores de Hollywood, decidiu passar o caso para o cinema, numa produção do seu amigo George Clooney. Na pele de Whitacre mete-se Matt Damon, que teve de engordar uns bons quilitos para emprestar verosimilhança à sua interpretação. Soderbergh, que já nos trouxe filmes tão díspares e tão extraordinários como "Sexo, Mentiras e Video", "Erin Brockovich", os três "Ocean's Eleven", "O Bom Alemão", o díptico sobre Che Guevara e, mais recentemente, a produção marginal "The Girlfriend Experience" (protagonizado pela actriz porno Sasha Gray), inspira-se no fabuloso caso Whitacre para incorrer num fantástico exercício sobre a verdade e a mentira. O filme é uma comédia ou um thriller? A fotografia, o ridículo pasmado de algumas situações, a banda sonora, sublinham-lhe o tom de comédia. O ritmo da narrativa, cheio de tiques de intriga policial ao modo de "Os Homens do Presidente", cria, por outro lado, uma atmosfera de suspense típica de thriller. Soderbergh contrói, a partir do seu interior, uma narrativa brilhante sobre o processo da mentira, o qual supera, na prodigiosa imaginação de Whitacre, os limites do imprevisível, utilizando para tal o discurso cinematográfico. São as mentiras de um mentiroso contadas com um recurso a um meio que usa e abusa, felizmente, da mentira, feita de maquilhagem e caracterização, tomadas de câmara, truques de montagem. Whitacre monta uma estória, urde um labirinto de mentiras, Soderbergh compraz-se a desenrolar-lhe o novelo. À sua maneira, claro está. O FBI, que julga ter colocado o químico ao seu serviço, convertendo-o num improvável espião, é tão surpreendido como o espectador pela candura com que Whitacre mente a tudo e todos, inclusive a si próprio. O que mais baralha e delicia é o modo como o improvisado delator vai confundido a verdade e a mentira, deixando-nos na dúvida se o faz compulsivamente ou se tudo é fruto de refinada premeditação.

Com uma narrativa admirável, cuja intensidade vai crescendo ao longo do filme, uma fotografia excelente e uma interpretação soberba de Matt Damon, O Delator é mais um grande filme desse autor singular que dá pelo nome de Steven Soderbergh. Imperdível para quem gosta de cinema.

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