
Maléfica
(Mai 2014, publicado no semanário O País)
Maléfica retoma o clássico Bela Adormecida, novamente sob a chancela da Disney, invertendo-lhe a perspetiva narrativa. Agora, no centro da estória, está a malvada e não a inocente donzela. O carisma de Angelina Jolie domina por inteiro a sua interpretação de Maléfica
A estória da Bela Adormecida, em que uma bela princesa é condenada a um sono profundo por uma maléfica feiticeira até que um príncipe a desperte com um beijo de amor pertence ao imaginário dos contos de fadas. A versão mais conhecida do conto é dos célebres irmãos Grimm, publicada em 1812, na obra Contos de Grimm, sob o título A Bela Adormecida (o título original é Dornröschen). Mas não há apenas uma versão da estória da Bela Adormecida. Atribui-se a Giambattista Basile a primeira versão da estória, em 1634. Em 1697, o escritor francês Charles Perrault publicava-a no livro Contos da Mãe Ganso sob o título de A Bela Adormecida no Bosque, que, por sua vez, também se inspirou no conto de Basile.
A transposição para o cinema foi feita sob a chancela dos Estúdios Disney que, em 1959, e, tendo como base a narrativa de Charles Perrault, Les Clark, Eric Larson e Wolfgang Reitherman dirigiram o filme que se tornou um clássico do cinema de animação, passando de geração para geração.
Eis que 2014 traz-nos uma nova versão da estória, com algumas modificações marcantes, a começar pela própria inversão do ponto de vista do narrador, que deixa de ser A Bela Adormecida para passar a ser Maléfica. Na versão original a oposição, que até se apresenta cândida, entre o bem e do mal não se questionava. Maléfica era má sem se indagar quais os motivos que determinaram a sua personalidade e a Bela Adormecida, boa e doce. Esta nova versão do conto, de Robert Stromberg, oscarizado pelas excelentes cenografias do Avatar de James Cameron e de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, não se fica por uma perspectiva a preto e branco, em que de um lado fervilha a maldade e, do aoutro, repousa a bondade, introduz zonas cinzentas entre elas. Procura saber das razões de Maléfica e coloca-a mesmo no centro da narrativa. Contando para isso com um trunfo precioso, a presença de Angelina Jolie, uma das mais carismáticas e sedutoras actrizes do actual panorama da indústria cinematográfica. E Jolie confirma os seus dotes, sem que, com isso, consiga transformar Maléfica num filme marcante.
Os cenários são de primeira qualidade (aspecto em que Stromberg se afirmou) com a reconstituição do castelo que surgia no clássico de animação, os efeitos especiais impressionam, a cantora Lana Del Rey oferece-nos uma interessante versão de Once Upon a Dream mas falta à transposição do argumento da experiente Linda Woolverton (que escreveu A Bela e o Monstro, O Rei Leão e Alice no País das Maravilhas) algo que fizesse deste filme uma estória de amor memorável, tirando partido do potencial quase inesgotável de Jolie.
O que não significa que o guião não faça passar boas ideias, principalmente a de rejeição do estereótipo feminino clássico em que mesmo a donzelas bonitas e boazinhas estão votadas para tarefas mais ou menos irrelevantes (Branca de Neve quando se muda para casa dos anõezinhos entrega-se logo às lides domésticas, pegando nos pratos que há para lavar). A Disney tem feito um esforço por modernizar os seus preconceitos éticos e ideológicos.
Maléfica tem as suas razões, e foi o trauma de um amor despedaçado que, afinal, a conduziu à maldade. Foi, em tempos, uma pequena fada que vivia no hemisfério harmonioso do reino dividido, partilhando a sua existência feliz com a natureza e outros seres mágicos. O seu coração endureceu mercê de vários acontecimentos, convencendo-a que lançar uma maldição sobre Aurora, a Bela Adormecida, constituía a melhor opção. É claro que esta explicação última para a maldade de Maléfica é um tanto tosca, repescando o tema da mulher cujo coração foi despedaçado pelo homem que ama e a traiu. E é pena que não tivesse havido mais imaginação na construção da personagem de Maléfica, claramente o centro do filme, e só mesmo o talento de Angelina Jolie lhe consegue emprestar um magnificente esplendor e um delicioso sarcasmo.
Robert Stromberg reafirma em Maléfica as suas qualidades no plano dos cenários e dos efeitos especiais, acentuando visualmente, com o recurso a essas novas e prodigiosas ferramentas digitais, a magia de Angelina Jolie mas ela até dispensa estes suplementos. A Disney reabilita-se da sua anterior 'ideologia feminina', a dicotomia simplista que opõe a maldade e a bondade esbate-se mas, apesar destes e outros pontos favoráveis, esta estreia de Stromberg como realizador continua a lembrar-nos os seus dotes como cenarista.
O que não impede Maléfica de provocar algum encantamento entre os mais jovens, sobretudo entre as mais jovens.