Mad Max 4: delírio na Namíbia

(Set 2014, publicado no semanário O País)      

'Mad Max: Estrada de Fúria', filmado no deserto da Namíbia, mantém-se perfeitamente no registo dos outros filmes da saga de culto, proporcionando-nos um 'franchising' que não se rala muito com os padrões estabelecidos e sulca o terror de cultura pós-apocalíptica numa vertigem delirante

Era um dos filmes de que se anunciava para este ano depois de ter feito furor no final da década de 1970, com Mel Gibson no papel principal e George Miller a assegurar a realização. O sucesso do primeiro filme justificou uma saga. O último Mad Max é de 1985 e a trilogia tornou-se objecto de culto, uma das distopias mais populares.

'Mad Max: Estrada de Fúria' mantém o mesmo registo pós-apocalíptico dominado pela dificílima sobrevivência num mundo completamente devastado em que motociclistas loucos e bizarros espalham o terror para impor o seu poder.

Há muito que se aguardava o regresso das planícies desérticas, agrestes, áridas e poeirentas da saga, sulcadas por máquinas absurdas feitas dos despojos do que restou da catástrofe apocalíptica. Projectos e mais projectos foram pensados, mas tudo ficava no papel. Em 2003, parecia que, finalmente, George Miller e Mel Gibson iriam lançar mãos ao Mad Max 4, mas a dificuldade em se filmar na Austrália acabou por adiar a produção e Gibson optou por desistir. Agora, são Tom Hardy e Charlize Theron que encabeçam o elenco. E 'Mad Max: Estrada de Fúria' acabou por ser filmado no deserto da Namíbia.

Max (Tom Hardy) é um polícia renegado num mundo que se rege pela lei do mais forte e que é perseguido por um passado tumultuoso num cenário apocalítico. Acredita que para sobreviver não pode depender de ninguém para além de si próprio. Desta feita somos apresentados a uma nova personagem: Furiosa (Charlize Theron), que lidera um grupo de rebeldes em fuga de uma cidadela tiranizada pelo implacável Immortan Joe. O bando, a que Max se junta, libertou um grupo de mulheres escravizadas. Furiosa é uma mulher corajosa que anseia conseguir mudar o estado das coisas e que acredita que o seu caminho para a sobrevivência só pode ser trilhado se ela cruzar o deserto e voltar para a sua terra natal.

Miller continua a dar-nos velocidades delirantes e choques macabros das bizarras viaturas que irrompem pelo inóspito cenário, e fá-lo com um brilho técnico impecável. Aliás, Mad Max é pródigo, desde o filme inaugural da série, em exercícios inovadores: foi um dos primeiros filmes australianos a ser filmado com uma lente 'widescreen anamórfica'.

As escolhas fotográficas (o tom envelhecido que acentua a aridez e concede um recorte especial às cenas nocturnas), a montagem que enche o olho do espectador com as acrobacias vertiginosas dos bólides delirantes, faz com que Mad Max, apesar de uma saga que olha para a bilheteira, também não se contenha em matéria de excessos, o que o torna um interessante objecto cinematográfico.

Quer Tom Hardy, um Max enigmático e de poucas falas, como a misteriosa Charlize Theron cumprem magnificamente os seus papéis. Uma referência também para Nicholas Hoult e Hugh Keays- Byrne, que participou no primeiro filme da saga e que assume agora a figura do vilão pavoroso e assassino Immortan Joe. A banda sonora ajuda muito, com a estupenda originalidade do caminhão com o guitarrista sinistro nele empoleirado que percorre os campos de batalha a uma velocidade...furiosa.

Até que ponto uma distopia pode mostrar a loucura, o poder enquanto violento abuso, pura crueldade a descoberto, o sentido de sobrevivência feroz, a estupidez e a maldade humanas? 'Mad Max: Estrada de Fúria' é um exercício plasticamente tão perfeito quanto excessivo e desvairado sobre estas questões.

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