Lucy

(Set 2014, publicado no semanário O País)     

Lucy não é apenas mais uma protagonista cheia de força e carácter que lida com a brutalidade com uma impressionante subtileza feminina, bem à maneira de Besson. É a mulher total que, numa trip alucinante, consegue utilizar 100% do seu cérebro e...não perca!

Fazer ficção científica através de uma narrativa veloz, estonteante mesmo, à maneira do bom cinema de acção e que nos lembra o que há de melhor na transposição da banda desenhada para o grande ecrã, reinventando a supermulher, que se transfigura de uma criatura frágil em alguém dotado de poderes ilimitados. Encetar uma orgia de cultura Pop, revisitar 2001 Odisseia no Espaço e alguns outros filmes admiráveis (a presença do humor típico de Tarantino, por exemplo, faz-se sentir) a partir de premissas científicas mais que discutíveis para terminar na metafísica, na rememoração da 'Árvore da Vida', de Terrence Malick. Tudo isto é Lucy.

Mas há mais. Lucy começa por nos dar uma visão limitada da condição humana (os golfinhos são mais inteligentes), forçada a reduzir o mundo às suas percepções e inventar o espaço, pois realmente só existe o tempo e, recolocando-a depois no centro de tudo, atirando-a para o Big Bang por via do aproveitamento pleno do seu cérebro. É muita coisa para 89 minutos de filme. Lucy, sendo entretenimento com uma extrema força visual, toca o psicadélico e o surreal, desenrola-se como uma trip através de uma narrativa louca que nos deixa a pensar, mesmo que nem sempre se tome muito a sério. E porque haveria de fazê-lo?

Luc Besson, conhecido como o mais 'comercial' dos realizadores franceses, já nos dera alguns dos mais brilhantes filmes de acção da década de 1990, como Nikita, O Profissional e O Quinto Elemento. Uma das suas características é centrar-se em protagonistas femininas de carácter fortíssimo. Agora coube a vez a Scarlett Johansson, que se desempenha da missão de forma brilhante. Mas já lá vamos.

Scarlett é Lucy, uma jovem que vive em Taipé, capital de Taiwan, e que é metida num esquema de tráfico de uma nova e poderosíssima droga sintética chamada CPH4, uma espécie de LSD da última geração, pela irresponsabilidade do namorado que, querendo passar por traficante, a obriga a entregar uma mala com a droga a um gangue chefiado por um misterioso psicótico. Antes de isto acontecer, mesmo no início do filme, conhecêramos outra Lucy, quando o plano de uma célula a dividir-se é subitamente cortado e vemos o mais famoso australopiteco, Lucy, o primeiro elo da cadeia evolutiva, a aprender a beber água num riacho. É daqui que passamos para a Lucy forçada a ser correio de droga e a quem acontece um acidente: um dos sacos da poderosa substância que lhe é inserida abre-se no estômago e espalha-se pelo organismo, capacitando-a a utilizar cada vez mais o seu cérebro).

Os planos duros ou frenéticos que nos dão conta da odisseia de Lucy vão sendo intercalados com os que mostram o professor Samuel Norman (um Morgan Freeman como sempre convincente e cativante), que praticamente funciona como narrador, que explica aos seus alunos como só usamos uma pequena parte do nosso cérebro e especula sobre o que aconteceria se acaso alargássemos a sua utilização. Lucy, cada vez com mais poderes graças à substância ingerida, consegue livrar-se dos seus raptores e voltar ao seu apartamento. Quer encontrar uma forma de parar os efeitos da droga e libertar-se daquele pesadelo. É então que encontra na internet as teorias do professor Norman. Parte ao encontro do professor e em busca dos outros correios de droga. Não se trata de uma missão 'humanitária' mas da pulsão de ir cada vez mais longe, tão longe que ultrapassa todos os limites da especulação. Encetou uma viagem alucinante pelo conhecimento, uma viagem como que alucinogénia - Lucy in the Sky with Diamonds. Se, à partida, a ideia de que apenas utilizamos 10% do nosso cérebro é mais um mito urbano que uma verdade científica, também a racionalidade do filme vai até um determinado ponto de...utilização do cérebro por Lucy. Para além dele tudo é possível, até a comunhão panteística com o cosmos.

Scarlett Johansson, desenvencilhada, felizmente, do 'sex-appeal' que já ameaçava estereotipar a sua presença em cena, compõe uma Lucy impecável, serenamente fria, glaciar mesmo, uma mulher total, sobre-humana, uma deusa que está em todo o lado. A fotografia de Thierry Arbogast (que acompanha Besson desde Nikita), valoriza sobremaneira o desempenho de Scarlet Johansson, com ângulos de câmara fechados no rosto da protagonista e uma deriva imagética de rara beleza. A música de Éric Serra, outro habitual da filmografia de Besson, confere, entre o rock e o clássico, a atmosfera necessária a cada uma das cenas do filme.

Tresloucado, um assomo de pura adrenalina, um assombro interpelativo, Lucy é um filme que marca. E Besson já o provou na bilheteira: o filme custou USD 40 milhões mas já arrecadou mais de USD 217 milhões por esse mundo fora.

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