Uma cerveja no inferno

16-04-2023
Desconfio contudo que a representação, o espectáculo em que a informação se converteu não supera o peso e o preço do saco do supermercado

Embora os tempos convidem a isso, não me dis-pensei-de-pensar, apesar de esforços sérios nesse sentido. Tarefa, aliás, biologicamente inviável. Apenas desisti de expressar gratuitamente o que penso. Para quê?

Só que um hábito profissional entranhado com os anos faz-me resvalar da razão. Há vícios irreparáveis.

É inútil bramar contra os aparelhos de comunicação de regimes que se anunciam "democracias liberais", são eles que concretizam a dimensão definitiva da dominação, a cultural. Sobretudo através das TV e dos centros ideológicos universitários, os "think tank", que dão cimento e estratégia aos diferentes governos. No caso "ocidental" a estratégia actual conduz a inflação e juros elevados que apoucam os rendimentos dos respectivos cidadãos. O que acontece de forma sistemática, dia-a-dia, mês após mês.

Portugal não é excepção. Os casos que põem em cheque o governo de Costa não são inéditos na governação típica socialista, a qual, inclusive, já chegou a atirar o país, por mais de uma vez, para a bancarrota. Num país sob observação dos investidores internacionais a posição de segundo mais endividado na Europa não é nada confortável. Qualquer oscilação, incluindo política, pode fazer descer o rating (a classificação de risco da dívida pública) e criar ainda mais embaraços aos que já existem. Um cenário de maior turbulência política e quase paralização da máquina do Estado comprometeria decerto a entrada do dinheiro europeu de que Portugal precisa como pão para a boca.

O governo luso não tem competência nem recursos para acudir ao desmoronar dos grandes sistemas sociais como o sistema de saúde e o sistema de ensino, ou para conseguir que a justiça funcione melhor que o quadro patético que dela dá a comunicação social. A segurança social e, em especial, os sistemas públicos de pensões, reflectem, nas suas dificuldades, as opções desastrosas que, anos a fio, foram classificadas como virtudes.

Desconfio contudo que a representação, o espectáculo em que a informação se converteu (nem toda ela, mas a televisiva cumpre a função propagandística de forma obscena, com a fossanguice das audiências e do lucro a casar com as fontes de propaganda), não chega para 'cancelar' o peso e o preço do saco do supermercado. É que não há vontade, nunca houve, de reformar o que quer que seja, nem há dinheiro para pagar a transição tecnológica, energética e social e ainda a guerra da Ucrânia, com novas exigências financeiras das indústrias de defesa - no caso do "ocidente alargado" sobretudo das indústrias de defesa norte-americanas, que têm uma quota de 60% neste ramo de negócio. Há outros vencedores: no mercado alimentar, no mercado petrolífero (embora as grandes empresas ocidentais proclamem que não desejavam os lucros acrescidos), assim como, soube-se mais recentemente, entre os fundos de investimento - em particular hedge funds. Os 10 maiores amealharam dois mil milhões de dólares em especulação com bens alimentares desde o início da operação ucraniana da Federação Russa.

Com tanto disparate sancionatório não admira que o preço do petróleo deva estar, nos próximos anos, entre 85 e 90 dólares, quando, entre 2015 e 2020, se manteve, em média, na casa dos 60 dólares. Não há nada que indicie que algo vá correr bem.

E também desconfio que grande parte das populações do designado "ocidente alargado" não tem, no topo das suas preocupações, o ódio à China ou à Rússia, pois, na verdade, estas potência nunca lhes entraram pelo quotidiano dentro para devastar as suas condições de existência sob o argumento de que o seu "modo de vida" se encontrava ameaçado por forças maléficas.

O povo "ocidental" está, como se vê, condenado ao empobrecimento pelos erros dos seus próprios governos. É esse o mantra que a população do designado "ocidente alargado", coisa que não se sabe muito bem o que é, arrasta nas suas vidas.

Tudo isto se assemelha a uma cerveja no inferno.



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