Sexo e raça determinam representação de arte lusa no mundo

26-12-2021

Portugal organizou um concurso para escolher o seu representante na Bienal de Veneza, uma das mais importantes mostras de arte internacional, que terá lugar em 2022. O vencedor foi, diz a imprensa, um artista "não-binário". A minha ingenuidade, associada a uma muito limitada literacia artística, levou-me de imediato a pensar que o artista seleccionado se inseria numa determinante corrente estética e que disso se dava conta ao leitor. Mas não. A tendência não é artística, é sexual. O meu velho dicionário da Porto Editora, epicamente anterior ao acordo ortográfico, dá o significado de binário, de artista, mas não de "artista binário ou não binário". Binário, esclarece o léxico, é o que "tem duas unidades, dois elementos ou dois termos". Na música, a palavra tem curso. Ao compasso binário, a dois tempos, são contrapostos, felizmente, os compassos não-binários. Só que o vencedor não ganhou com uma peça musical. Mesmo que "Vampiros no Espaço", o projecto escolhido, fosse puramente musical, nada teria a ver com o "não-binário" que classifica o vencedor, Pedro Neves Marques. O assunto é sexual. O autor assume que é sexualmente não-binário, inclui-se entre os não assumem especificamente qualquer dos dois termos do binómio masculino-feminino. Assume-o e faz muito bem. Mas o que tem isso a ver com o valor do projecto que apresentou? Porque carga de água a orientação sexual do artista, ou se quisermos, e como agora se papagueia, a sua "identidade de género", é o que define a qualidade e a verdade da lusa representação no evento?

Tive a pachorra de ir ler os objectivos do concurso ao site da Direcção-Geral das Artes, afecta ao Ministério da Cultura. São sete e os candidatos devem "evidenciar a correspondência" a, pelo menos, três deles, sendo que nenhum fala em género, não faltando, todavia e como não poderia deixar de ser, um que impõe a questão ambiental. Acontece, no entanto, que, em extenso artigo de duas páginas da jornalista Isabel Salema que o diário Público dedicou à questão, a autora chama a atenção que o decreto-Lei nº 47/2021, ao abrigo do qual o concurso foi lançado, estabelece que na escolha dos artistas os curadores têm levar em conta pressupostos como a "igualdade de género e maior representação e participação étnico-raciais". Já entre os objectivos específicos do concurso em causa figura a adesão à causa ambiental. O que é que tudo isto tem a ver com beleza do projecto artístico que vai representar o país no evento? Nada. Mas nos tempos que correm, não sejamos novamente ingénuos, tem tudo. Correspondem às obcessões ideológicas que os zeladores da cultura dominante impingem todos os dias e por todo o lado.

E fundamentam protestos. Imagine-se que 100 personalidades 100 (assim mesmo! Devem anunciar-se como nos cartazes de tauromaquia) insurgem-se em carta aberta publicada contra o resultado do concurso e preconizam que "os júris - conjunto de especialistas, deste e de outros concursos onde esteja em causa a representação de Portugal sejam doravante constituídos de forma a representar a diversidade étnico-cultural do povo português". Entre os subscritores não podia faltar o fatídico Boaventura Sousa Santos, que apesar do verdete dos anos, não resiste a apoiar qualquer causa imbecil ao alcance das mãos. Causas imbecis mas perigosas.

Um dia antes das personalidades, de braço dado com várias associações (algumas delas putativamente "anti-racistas") se manifestarem publicamente, Bruno Leitão, o curador que propôs o projecto classificado em segundo lugar, da artista Grada Kizomba, pediu um recurso do resultado do concurso e, antes disso, uma senhora, com o título de "investigadora", chamada Ana Teixeira Pinto, carimbara a decisão de seleccionar o artista não-binário como "racista e misógena" - em artigo publicado no Público a 3 de Dezembro último.

Porquê? A polémica não se mostra interessada em comparar os projectos candidatos à representação portuguesa na mostra de arte de Veneza. A fixação reside na "identidade de género" e na condição racial dos candidatos. Grada Kizomba é negra.  O stress da decisão final a tomar é um incómodo confessado pela jornalista Bárbara Reis na edição de 18 de Dezembro do Público. Remata um texto que é uma pérola da cultura vigente com um desabafo que é uma boa caricatura dos tempos que vamos vivendo: o "debate é delicado e difícil. Não estou a defender quotas para não-binários. Mas não podemos fazer de conta que Kilomba perdeu num concurso para quatro homens brancos e heterossexuais". Não havendo na compita brancos heterossexuais a concorrência entre o género e a raça instalaram assim a zaragata entre os actores oficiais da cultura nacional - alguns deles seguramente erigidos a epígonos dessa mesma cultura. Está bem de ver que enquanto estas criaturas, em que o racismo e a misogenia formam um caldo do mais abjecto paternalismo, mandarem ou influenciarem os destinos dos dinheiros da cultura,  a representação da arte portuguesa no exterior não será determinada pela qualidade dos projectos artísticos, ficando antes confinada a critérios como a "identidade de género" e a condição racial.

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