Reformista?

As eleições para o parlamento português deram uma inesperada maioria absoluta aos socialistas (inesperada face às sondagens e ao tom dominante na comunicação social), que assim se mantêm no poder, agora sem depender de quem quer que seja. Os seus ex-companheiros parlamentares, comunistas e Bloco de Esquerda (que reúne várias tendências comunistas divergentes da oficial), que provocaram a queda do seu governo ao reprovarem o respectivo orçamento, foram fortemente penalizados pelo "voto útil", mobilizado, na fase derradeira da campanha eleitoral, para derrotar a direita, já que as sondagens chegaram a admitir a vitória dos sociais-democratas do PSD, bem como dos liberais e dos populistas "anti-sistema" actual do Chega.
As agências de rating saúdam o afastamento de comunistas e bloquistas da esfera do poder e, internamente, muitos analistas consideram que o líder socialista terá agora uma oportunidade "de ouro" para efectuar uma boa governação, indo ao encontro das necessidades do país. António Costa, senhor absoluto do Partido Socialista e do governo, irá aproveitar essa condição ímpar para fazer reformas?
Costa tem a seu favor uma situação orçamental relativamente equilibrada, com o montante da enorme dívida portuguesa até a recuar ligeiramente, e um envelope europeu de mais de 45 mil milhões de euros para gastar em sete anos, somando as verbas destinadas à recuperação da economia na fase pós pandemia e o quadro de financiamento plurianual. Irá, entretanto, enfrentar uma envolvente internacional adversa, com a subida da inflação, a desvalorizar os baixos rendimentos e a implicar o aumento dos juros, o que fará aumentar as pressões sobre a dívida lusa e reduzirão, até que ponto se verá, a actual folga orçamental, obrigando a cortes, ou cativações, na despesa e investimento públicos.
Os socialistas pediram a maioria absoluta, primeiro como exigência de estabilidade, depois, na última fase da campanha, como forma de travar o perigo da direita, que prometia reformas. Chegaram a agitar o espectro "fascista", com Costa a colar Rui Rio, líder do PSD, a André Ventura, líder do Chega. A este disse directamente, adensando o "dramatismo" da "ameaça": "por mim o senhor não passará".
Os socialistas conduziram habilmente uma campanha do medo, contra a hipótese dos partidos à sua direita, que prometiam reformas da sociedade e da economia, conseguirem chegar ao poder. Apelaram, com sucesso, ao voto dos eleitores de esquerda em socorro das "conquistas" adquiridas em domínios como a saúde, a educação, a fiscalidade, a segurança social, a justiça, ameaçadas pelas reformas prometidas, com menor ou maior moderação, pela direita, com os sociais-democratas à cabeça.
Como estratégia eleitoral vingou em pleno. A grande dúvida é se este discurso se destinou apenas a ganhar votos ou se ele acaba por reflectir mesmo a perspectiva socialista sobre a situação portuguesa.