PORTUGAL E A NOVA ORDEM

06-06-2022

Os Estados Unidos vão fornecer a terça parte do gás natural que a Rússia fornece actualmente à Europa. Deverá acontecer já no próximo ano e Portugal posiciona-se para ser uma das portas de entrada da matéria-prima


A 1 de Março, uma semana depois da invasão militar da Ucrânia pela Federação Russa e umas horas antes do Presidente dos Estados Unidos pronunciar o seu discurso sobre 'o estado da União', ansiosamente aguardado dada a situação no leste europeu, escrevi aqui que, "no mais ou menos imprevisível novo quadro de segurança europeia, militar e económica, o 'velho continente' terá de alterar o aprovisionamento das fontes de energia que permitem o funcionamento das suas economias e das suas sociedades. Ou seja, não poderá depender do gás natural que compra à Rússia. E os Estados Unidos são o primeiro produtor mundial de gás natural liquefeito (LNG), produto extraído do fraccionamento do xisto. Que deverá, para substituir o gás russo, entrar na Europa pelo porto português de Sines, com a França a deixar cair a sua oposição a um novo gasoduto trans europeu, que já tem o acordo de Portugal e Espanha, mas que não passava os Pirenéus".

Biden não tocou obviamente, no seu discurso, na substituição de parte do gás fornecido à Europa pela Rússia por gás proveniente dos Estados Unidos. Embora já se tenha perdido todo o pudor coibiu-se de o fazer. Já o primeiro-ministro, António Costa, não deixou escapar o tema, associando-lhe as virtualidades de Sines. Em visita à Alemanha exultou as vantagens da construção de um gasoduto que atravesse Espanha e os Pirinéus fazendo chegar o LNG ao centro da Europa e garantiu que é projecto para concretizar em quatro anos. Sines é um dos destinos mais prováveis do gás liquefeito expedido para a Europa em navios tanques e um dos portos de partida mais viáveis para a matéria-prima que viajará na nova rede de gasodutos, destinada a substituir, em boa parte, o fornecimento russo. O chanceler alemão, que anda perdido nas vicissitudes do conflito na Ucrânia, respondeu-lhe tratar-se de uma ideia "interessante".

É natural que o financiamento do aumento da rede de gasodutos, sobretudo do lado dos Pirinéus orientais, venha a ser financiado pela União Europeia. O que parece constituir uma oportunidade para Portugal no novo mapa do fornecimento de energia à Europa. Os Estados Unidos preparam-se para suprir na terça parte o actual fornecimento russo (43% do consumo total europeu) e se for superada a questão da ligação da Península Ibérica à Europa e reforçada a rede de gasodutos e a capacidade de armazenagem existente, os portos mediterrânicos de Huelva e Bilbao e o atlântico de Sines poderão assegurar 20% do gás que a Europa necessita. É possível fazer que isso aconteça num espaço de um ano, garantem os responsáveis.

Registe-se que o terminal de gás natural liquefeito de Sines é da REN (Redes Elétricas Nacionais), controlada por capital chinês, sendo já o gás proveniente dos Estados Unidos o principal cliente.

Sines permite que o chefe do Governo português tire outras cartas da manga. António Costa exalta igualmente as possibilidades do 'transhipment', ou seja, o transbordo, nas águas profundas de Sines, de navios tanques de grande calado para navios mais pequenos, que depois rumam a portos europeus. O primeiro-ministro já afirmou publicamente que não tem "a menor das dúvidas de que este acordo com os Estados Unidos - quer para este ano, quer sobretudo aquilo que vai ser reforçado no próximo ano, quando vai preencher cerca de um terço do que são as quantidades de gás que a Europa atualmente está a importar da Rússia - vai permitir, seguramente, ao Porto de Sines ter um papel cada vez mais estratégico".

Portugal não tem muito a temer com a turbulência nesta brusca alteração na estratégia europeia de aquisição de gás natural, dado que importa muito mais por metaneiros, que escalam Sines, que através do gasoduto que vem da Argélia. Os Estados Unidos, que ultrapassaram a Nigéria, são o principal fornecedor de gás natural liquefeito do país. Isto quanto a quantidades. A subida do preço da matéria-prima traz um inevitável sofrimento.

NOVO TERMINAL DE CONTENTORES CONGELADO

Sobre o concurso público internacional para a construção e concessão do novo terminal de contentores de Sines, o Terminal Vasco da Gama, envolvendo um investimento privado de 642 milhões de euros, muito pouco se sabe entre Abril de 2021, quando encerrou sem propostas e Março deste ano, mês em que foi aprovada nova legislação sobre as bases de concessão e que adopta um "cenário de tráfego conservador". Os efeitos da pandemia sobre o ritmo de actividade económica são de ter em conta, é verdade, mas a recentragem dos grandes blocos económicos, em que a Ucrânia deixa de ser a "fronteira" (não se sabe de quê mas, enfim) para passar a ser o fim do universo europeu, beneficia a prazo a posição portuguesa.

Apesar de "readaptado" às novas condições de mercado pós-covid o concurso para o novo terminal de contentores foi posto em banho-maria. O presidente da administração do Porto de Sines, em entrevista ao Expresso, reconheceu que "no momento que vivemos não temos condições para lançar o concurso".

Ainda a propósito do contributo luso para a nova geografia energética da Europa, as autoridades não deixarão de acentuar a aposta no hidrogénio verde.

OPORTUNIDADES E DIFICULDADES

Portugal está numa situação difícil, com o controlo da dívida pública a pôr travão às despesas orçamentais, os juros a subir e os preços a dispararem, devorando o rendimento dos particulares. O governo defronta-se com demasiadas restrições orçamentais, impostas pelo volume da dívida, que subiu, para conseguir repô-los, o que faz antever forte agitação social.

As reformas há décadas necessárias (na administração pública, na fiscalidade, na justiça e, de uma vez por todas, nas leis laborais, criando um quadro transparente de contratação compreensível pelas partes) mantém-se bloqueadas. E nunca farão parte da agenda socialista, cujos tradicionais pilares são melhorar a "inovação" e as "qualificações". Ninguém nega a importância destes objectivos, só que, como o prova a decadência relativa da economia do país face aos congéneres europeus (Portugal caminha para o último lugar no que respeita ao rendimento dos habitantes), não chegam e serão sempre objectivos falhados se não forem perseguidos num contexto favorável à iniciativa e actividade empresarial, com, por exemplo, menos peso fiscal e parafiscal sobre as tesourarias e o emprego ou menos burocracia, ou justiça mais coerente, célere e eficiente.

As autoridades espreitam assim, à entrada de uma tremenda crise económica internacional, as oportunidades da nova ordem global que se desenha (na crença de que se evitará um conflito nuclear).

Promover o que se tem, atrair investidores, é o que as autoridades portuguesas procuram fazer de imediato. Na importante Feira de Hanover, de que foi 'special guest', Portugal fez-se representar pelo primeiro-ministro. Vendeu o que o país tem para dar. Fez muito bem.

Enquanto isso, o novo governo de maioria absoluta socialista viu aprovado um orçamento que não traz qualquer novidade, excepto os actos mediáticos encenados com o Livre e o PAN para simular diálogo e pluralismo, face a uma economia internacional que se está a afundar.

A inflação, insuflada primeiro pela liquidez lançada sobre a economia para tentar responder à pandemia, num contexto de redução da oferta devido a rupturas nas cadeias de valor, levou depois o coice das sanções impostas à Federação Russa na sequência do conflito na Ucrânia e poderá terminar o ano acima dos dois dígitos, na Europa e em Portugal, algo que há muito a civilizada União Europeia não experimentava. Apesar de a OPEP (organização dos países produtores de petróleo, de que a Rússia é parceira) anunciar a colocação de mais cerca de 600 mil barris de crude no mercado, o preço do petróleo e do gás não deverá descer facilmente. Poderá mesmo subir mais, para níveis sem precedentes. A escassez de cereais, decorrente do conflito, abala a economia internacional e amplia o espectro da fome em algumas regiões. Adivinha-se uma retracção global, cuja gravidade depende da evolução do conflito. A economia, que dependeu, durante dois anos, das vicissitudes da pandemia, passou a estar refém do estado de guerra. Piora com a escalada e duração do conflito. Reza-se para que não vá ao fundo.

O que se sabe deste mundo novo de que já conhecemos a parte "admirável" através das campanhas mediáticas? Sabe-se que a Europa irá jogar um papel subalterno face aos Estados Unidos enquanto não dispuser de autonomia energética. E passará a ter os Estados Unidos como grande fornecedor. Irá gastar fortunas a redesenhar a rede de gasodutos e oleodutos e os terminais portuários de recepção de gás.

Os diferentes países, sobretudo os mais pequenos, como Portugal, vão ter de encontrar o seu lugar e as suas oportunidades num mundo, de facto, cada vem mais multipolar, em que um insuspeitável bloco sino-russo será uma realidade. O ocidente globalizou-se, até agora, com 'países emergentes', vai lidar no futuro com 'blocos emergentes'.

Uma nova ordem em que Portugal poderá jogar os seus trunfos (posição, indústria, turismo, estabilidade, segurança, clima), o que não dispensa o país de olhar mais seriamente para a urgência de reformas.

Share
© 2021 Paulo Figueiredo. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora