PIOR É DIFÍCIL

02-05-2022

Na semana compreendida entre 19 e 25 de Abril morreram em Portugal 119 pessoas de Covid-19 (ou com Covid-19) .Na mesma semana de 2021 as fatalidades foram apenas 20. Ou seja, este ano as mortes devido à pandemia multiplicaram-se quase por 6 na última semana de Abril face a 2021. Há um ano a situação era muito melhor.

Um facto que geraria grande alvoroço mediático na altura em que os media dedicavam atenção quase exclusiva, espaços especiais junto ao cabeçalho e prioridade nos alinhamentos à pandemia. Tudo isso desapareceu e a informação sobre a pandemia tornou-se praticamente residual e o que vale é que a Direção Geral de Saúde mantém os boletins de reporte. A Covid-19 foi extinta pelo circo mediático, o que não passa na televisão não é real, pura e simplesmente não acontece.

E mais do que os factos eleitos importa a narrativa que os conta. Há mesmo "cenarizações" e há, acima de tudo, enquadramentos, contextos, edições (hierarquização dos factos e montagens verbais e visuais) que compõem a narrativa e resumem o que o povo sabe do mundo. Em nada disto falta boa consciência e higiene moral.

Entre a pandemia e a sua extinção mediática (oxalá que a realidade não obrigue os media a retomar o tema!), emergiu a crise ucraniana com a invasão russa de 24 de Fevereiro. A Covid-19 desapareceu praticamente das notícias.

O mundo move-se freneticamente nos ecrãs ou o mundo dos ecrãs move-se freneticamente. Tanto faz. E a realidade, o que nos reserva?

As instituições internacionais estavam relativamente optimistas quanto à retoma da economia global no segundo trimestre, apostando no declínio da pandemia e na reanimação da actividade, com o restabelecimento das cadeias de valor e o reaparecimento do consumo. As autoridades monetárias europeias ainda hesitavam em retirar os estímulos às economias do continente, mantendo os juros baixos. As norte-americanas mostravam-se mais agressivas em relação à inflação, com anúncios, pela Federal Reserve, de aumentos sucessivos da taxa de juro de referência este ano. No fundo, havia a intuição de que a inflação não desceria de repente, acabando, no entanto, os preços por estabilizar em níveis aceitáveis.

Um pesadelo que corresponde a um cenário de guerra prolongada na Europa em que os impactos sociais no continente e nos Estados Unidos obrigariam os media a mudar novamente o tema de predilecção e a endrominar uma narrativa imbecil para a crise social que assaltaria o ocidente dentro das suas próprias muralhas. Não na fronteira, mas dentro de portas 


Ora, a crise na Ucrânia e as sanções fixadas pelo Ocidente à Rússia, como forma de derrotar economicamente o país (de duvidosa eficácia, atendendo a que ainda nenhum governo caiu devido ao efeito de sanções), instalou de vez a inflação. Pior ainda: deixou-a em roda livre ao afectar três mercados fundamentais: o energético, o cerealífero/alimentar e o dos metais.

"Os efeitos económicos da guerra estão a espalhar-se e alargar-se como ondas sísmicas que emanam do epicentro de um terremoto - principalmente através dos mercados de commodities, do comércio e da ligações ao nível financeiro. A Rússia é um grande fornecedor de petróleo, gás e metais e, juntamente com a Ucrânia, de trigo e milho, e o declínio previsto na oferta dessas commodities já fez com que os respectivos preços subissem acentuadamente. A Europa, Cáucaso e Ásia Central, Médio Oriente, África do Norte e África Subsaariana são as regiões mais afectadas. Os aumentos de preços de alimentos e combustíveis vão prejudicar as famílias de mais baixos rendimentos por todo o mundo - inclusive nas Américas e na Ásia", diz o Fundo Monetário Internacional (FMI) na última actualização (Abril) das suas perspectivas e estimativas para a economia mundial (World Economic Outlook).

A ruptura nos circuitos económicos não se dá 'apenas' devido à alta dos preços das matérias-primas. Actualmente, uma disrupção económica tem um efeito 'cascata'. É, por exemplo, o caso dos corte dos fornecimentos de firmas russas e ucranianas de materiais e componentes muito específicos. A Ucrânia está devastada. Dezenas de grandes empresas saíram da Rússia, grandes projectos foram suspensos. A Renault/Nissan vendeu por um rublo a sua unidade construtora do primeiro automóvel de luxo russo, aliás, o que é utilizado por Vladimir Putin. Franceses e nipónicos podem regressar no prazo de cinco anos, pagando ao Estado russo os investimentos que tiver efectuado na unidade industrial enquanto estiverem ausentes.

A organização que reúne os países produtores de petróleo (e de gás), a OPEP (de que a Rússia é parceira) já disse que não se atreveria a mexer na sua produção. A dependência europeia em relação ao gás russo é grande. Até ao final de Abril, a Europa recebeu da Rússia 5 mil milhões de metros cúbicos de gás. Não se muda de agulha, no mercado da energia, de um momento para o outro. Um factor que poderá, no meio da volatilidade total que atingiu o mercado da energia, ser estabilizador. Prevalecendo, entretanto, a incerteza e os preços elevados de matérias-primas básicas. Os preços andarão ao ritmo da intensificação, ou não, do drama humanitário, da agressividade verbal e da evolução militar da guerra.

A retracção das economias, o crescimento da inflação, as taxas de juro mais elevadas e a pressão que coloca aos países mais endividados, a perda de poder de compra e, para grandes camadas da população, o empobrecimento, poderá ser o desabar da tempestade que paira sobre as nossas cabeças: uma estagnação económica conjugada com preços cada vez mais elevados.

Um pesadelo que corresponde a um cenário de guerra prolongada na Europa em que os impactos sociais no continente e nos Estados Unidos obrigariam os media a mudar novamente o tema de predilecção e a endrominar uma narrativa imbecil para a crise social que assaltaria o ocidente dentro das suas próprias muralhas. Não na fronteira, mas dentro de portas.

Mas, voltando ao início, à Covid-19, o FMI avisa que "a propagação contínua do vírus pode dar origem a variantes mais letais que escapam às vacinas ou à imunidade de infecções passadas, levando a novos bloqueios e interrupções na produção".

Pior é difícil.

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