País em fuga

A detenção, na África do Sul, do financeiro português João Rendeiro interrompeu o domínio dos episódios da pandemia e da crise partidária nos media lusos. Rendeiro, por boas ou más razões, a questão não interessa para aqui, fugiu de uma sentença da justiça portuguesa. É um fugitivo, como há e haverá outros de que não se ouve nem ouvirá falar. Tem a particularidade de ter meios para fugir para mais longe e, como criador de um banco falido, mas com capacidade para se esgueirar às sentenças que sobre ele caíram, capta a atenção mediática. Um fugitivo de luxo que domina os telejornais. A novela é esticada a um ponto indecoroso. O país e o mundo ofuscaram-se face à busca escabrosa de pormenores sobre o assunto, valendo tudo, desde imagens do google a patéticos comentadores. Todos têm fé em que Rendeiro volte. E se não voltar? Arranja-se outro tema, desde que não seja realmente importante.
Os media não resistem a este tipo de casos que, acreditam, fazem as audiências palpitar. Por todo o lado a cultura dominante, cada vez mais global, afasta a realidade. A realidade, como disse um filósofo contemporâneo converteu-se numa representação. Doentia, mentirosa, manipuladora. No caso português a fuga à realidade fixou-se agora num ... fugitivo.