O TUMULTO IRANIANO

31-05-2026
Antes de rebentar a nova "bolha da IA", sabe-se lá quando, a administração norte-americana tem de apanhar os cacos da sua aventura no Golfo

Um tumulto perturba a narrativa dos analistas dos meios de comunicação, que representa a opinião oficial. Como os Estados Unidos sairão da guerra contra o Irão? Ninguém sabe.

Faltam as habituais certezas, como a vitória garantida da Ucrânia no conflito provocado pela invasão russa. A Federação Russa não atingiu os seus objetivos, mas a ideia pateta de provocar a derrocada do regime russo, "a queda de Putin", saiu vergonhosamente da narrativa oficial.

Pelo caminho foi-se a segurança energética europeia. O que não é pouco.

O ataque norte-americano ao Irão, apoiando o desejo israelita de destruir o regime de Teerão, compromete seriamente qualquer vestígio de equilíbrio nas relações internacionais. Nem o argumento "preventivo", já fragilizado pela ausência de justificação prévia perante as Nações Unidas, consegue legitimar o assassinato da elite dirigente do inimigo.

Mas, deixando de lado o assassinato de quaisquer regras que regulem as relações entre os Estados e respeitem a soberania destes, o que traz consequências graves, detenhamo-nos nos interesses geopolíticos.

Os Estados Unidos, para manterem o domínio global, tentam controlar a rota da energia, em oposição à nova rota da seda chinesa.

Até agora, os norte-americanos têm sido eficazes. Conseguiram desviar a Europa do consumo de gás russo para a importação do gás liquefeito que produzem por fracking. Também passaram a controlar a produção venezuelana, através de um "golpe de estado" espetacular e sem precedentes.

Decidiram, em parceria com Israel, atacar o Irão. Para os norte-americanos o objetivo seria livrar-se de uma nação hostil à sua hegemonia no Golfo, a terra dos petrodólares. As economias do Golfo geram dinheiro a rodos e boa parte dele vai para o mercado norte-americano. Os activos de grandes empresas dos Estados Unidos detidos pelas monarquias do Golfo é colossal. Só no último ano, através dos Estados e de fundos públicos, investiram cerca de 132 mil milhões de dólares na economia norte-americana.

A reciclagem dos petrodólares em activos norte-americanos é indispensável à manutenção do dólar como moeda universal e à possibilidade dos Estados Unidos continuarem a imprimi-los. Se perderem a capacidade de gerir a dívida, esta acabará por esmagar o seu estatuto de grande potência.

Além do efeito global sobre o aumento do preço da energia, os Estados Unidos, sendo embora os maiores produtores petrolíferos do planeta, consomem, ainda assim, mais do que produzem, o que amplifica o efeito preço.

Poderão ter-se convencido, ou sido convencidos pelos israelitas, que o Irão, após um ataque brutal, não conseguiria o controlo do Estreito de Ormuz. Pelo que se vê, ou cometeram um erro crasso ou foram enganados. O Irão não possui armas nucleares, mas detém um instrumento demolidor: Ormuz.

Ormuz é um gargalo para a economia global. Por lá passam a maior parte do petróleo e gás natural que alimentam as economias asiáticas. Como passa parte substancial dos fertilizantes, cimento e aço.

O ataque norte-americano produziu o cerco iraniano de Ormuz. Trump tem que reabri-lo face ao seu impacto sobre o custo de vida interno se quiser manter as hipóteses dos republicanos nas próximas eleições intercalares. Até porque o clima interno não lhe é desfavorável. Conta com a euforia da subida dos índices bolsistas nos Estados Unidos (atingiram máximos históricos em Maio), impulsionados pelas tecnológicas que dominam o desenvolvimento da IA e com o desemprego aparentemente sob controlo.

Antes de rebentar a nova "bolha da IA", um colapso antecipado por alguns analistas do mercado de capitais, a administração norte-americana vai ter de apanhar os cacos da sua aventura no Golfo.

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