O TRISTE ESTADO DA UNIÃO

É que tudo corre mal à Europa: Trump foi eleito, a Rússia é a provável vencedora da guerra que a opõe à Ucrânia, a União ziguezagueia, num entontecido dislate, quanto às suas relações com a China e o Médio Oriente, mais um factor de divisão que de unidade.
No meio do espectáculo mediático em torno das guerras que afectam diretamente o Ocidente não se está a dar especial atenção à possibilidade da Europa mergulhar numa profunda crise económica. Que pode começar por concretizar-se numa nova crise da dívida.
A primeira crise da dívida propagou-se com mais intensidade por países periféricos, como Grécia, Portugal ou Irlanda. Então, nos finais da primeira década do novo milénio, a Alemanha de Merkel, economicamente pujante, resolveu, bem ou mal, o problema, assegurando a estabilidade do euro. Nos dias que vivemos o drama da dívida excessiva atinge uma das maiores economias europeias, a França, onde já representa 130% do produto interno (PIB), e a previsão para o défice duplica o tecto de 3% imposto pelas regras comunitárias destinadas à estabilidade da moeda única.
A semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) alertou para o perigo à vista, sem que o aviso tenha merecido o interesse dos noticiários, sobretudo dos televisivos. Na revisão que faz mensalmente da estabilidade financeira no espaço da União, o Banco Central Europeu (BCE) considera que "elevados níveis de dívida e elevados défices orçamentais, juntamente com fraco potencial de crescimento de longo prazo e incerteza política, aumentam o risco de que a derrapagem fiscal reacenda as preocupações do mercado sobre a sustentabilidade da dívida soberana".
É, no entanto, pouco provável que o BCE, utilize os mecanismos que possui para socorrer Estados-membros que passem a suportar juros muito elevados em função da dívida acumulada e dos maus saldos orçamentais. A França não cumpre alguns dos critérios que justificam a intervenção do banco central do euro. A atenção recai mais sobre a contaminação de outros membros da União Monetária que, apresentando contas aceitáveis face aos critérios estabelecidos, poderão acabar por "levar por tabela".
O certo é que os custos dos juros vão subindo e a nova dívida, destinada a, pelo menos, substituir a que vence, está a ser comprada a um preço cada vez mais elevado.
E a situação pode mesmo descambar em França se Marine Le Pen optar pelo derrube do actual e frágil governo do seu país, liderado por Michel Barnier (a votação da moção de censura colocada no parlamento é votada no dia seguinte ao que são escritas estas linhas).
A verdade é que o crescimento previsto para a União é medíocre: segundo as previsões de Outono da Comissão Europeia, o PIB da UE deverá crescer 0,9% em 2024, e 1,5% em 2025. A zona euro seguirá uma trajetória semelhante, com 0,8% de crescimento este ano. Se estourar uma crise de dívida o panorama descambará.
E, desta vez, a economia alemã não estará em condições para ocorrer a coisa nenhuma, nem parece capaz de ocorrer a si própria.
Na Alemanha não só a Volkswagen anuncia despedimentos. Outros gigantes como a siderúrgica ThyssenKrupp, Bosch ou Ford alemã fazem o mesmo. As expectativas políticas são muito confusas, com a favorita, a democrata-cristã CDU, e os sociais-democratas do SPD a discordarem quanto à Ucrânia e o AfD, da nova direita, a posicionar-se como segundo maior partido. A política alemã baralhou-se tanto que se admite um governo democrata-cristão que, além do outro partido 'central', o SPD (social-democrata), venha a incluir a nova esquerda do BSW, que exige acabar com a guerra na Ucrânia.
Junte-se a isto o pânico causado pela promessa de tarifas de 20% a aplicar aos produtos europeus anunciadas por Donald Trump (claramente uma "ameaça negocial"), as dificuldades nas relações comerciais com a China, desastrosas para a economia alemã, e a mudança do quadro político tradicional nos diferentes países. As coisas não azedam só por aqui. Veja-se o zigue-zague estonteante que caracteriza politicamente as relações da UE com o gigante chinês, acusado de apoiar a Federação Russa na guerra da Ucrânia.
Por detrás destas vésperas de suicídio estão, em medida decisiva, os efeitos da guerra na Ucrânia. A Europa abdicou da 'segurança' energética a preços razoáveis e passou a pagar uma parcela da despesa brutal implicada pelo conflito, destinada a pagar armamento e o funcionamento do Estado ucraniano.
Até os países mais periféricos, mas também mais pobres, como Portugal, se ressentirão do impacto ucraniano. A evolução do PIB luso, a riqueza criada anualmente pelo país, é modesta e assenta já na dinâmica do consumo. As exportações (incluindo o turismo) já se ressentem dos problemas dos principais parceiros económicos de Portugal e o investimento retrai-se. A inflação parece querer ressurgir. Curiosamente as taxas de juro a que o Estado contrai nova dívida parecem agora resistir teimosamente a prosseguir o seu movimento de descida. Se juntarmos às dificuldades em manter o Orçamento equilibrado, mesmo com os serviços públicos a desmoronarem, o advogado reforço substancial do orçamento da defesa, que prepararia a Europa para "a ameaça russa", o futuro torna-se ainda mais sombrio a prazo curto. Neste contexto, uma crise financeira na Europa, associada à retracção dos seus principais parceiros comerciais, teriam (terão…) um impacto avassalador sobre Portugal.
A Europa dá de si a imagem da mais absoluta incompetência, aparvalhada e desorientada.
Os media convencionais, designadamente a televisão, massacram, há mais de três anos, a opinião pública com mentiras tão escabrosas quanto inverosímeis. Viu-se como cobriram a eleição presidencial norte-americana, fazendo campanha manipuladora a favor de uma candidata que perdeu estrondosamente.
A guerra da Ucrânia tem proporcionado uma narrativa alucinada. O presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, ora está com cancro, ora está prestes a ser derrubado. Era coisa para acontecer dentro de momentos...Ainda lá está. Jurava-se que seria mais que certa a derrota estratégica da Rússia, batalhando-se agora por uma posição menos humilhante numa hipotética negociação.
Putin que, de acordo com a narrativa engendrada, era um dirigente possuído pela loucura tornou-se um ser racional em quem se confia que não vai premir o botão da destruição nuclear. Propalou-se, com travo de vitória inevitável, que os russos estavam de rastos, que a sua economia sucumbiria em poucos meses com as sanções, russos que combatiam sem meias e tinham que deitar mão de chips roubados aos frigoríficos ou máquinas de lavar para fazer armamento. O temor actual (sobretudo europeu) é que não haja resposta para a sofisticação de alguma tecnologia militar russa… Enfim.
É que tudo corre mal à Europa: Trump foi eleito, a Rússia é a provável vencedora da guerra que a opõe à Ucrânia, a União ziguezagueia, num entontecido dislate, quanto às suas relações com a China e o Médio Oriente, mais um factor de divisão que de unidade.