O ideólogo de Trump

13-03-2025
Este mandato de Trump é muito diferente do primeiro. Agora está à frente de uma equipa consistente em ideologia e objetivos 

Utilizar as chamadas "tarifas", que são impostos alfandegários, como instrumento de táctica política tem custos. O diz que sim e, passadas horas, que afinal "não" serve o jogo político e diplomático mas, obviamente, perturba os mercados. A incerteza gera instabilidade e retracção. Na aparência é pois, de imediato, a pior das apostas da administração Trump.

Mas os "impulsos" de Trump são aplaudidos pelo seu economista favorito, defensor das tarifas, Peter Navarro, hoje muito provavelmente a principal inspiração ideológica da governação MAGA, apoiada, pelo menos, pelos titãs da tecnologia que actualmente comanda a produção. Navarro e Stephen Miller (economista conservador e também conselheiro de Trump) protagonizaram o debate sobre a imposição de tarifas ao Canadá, China e México.

Navarro vem do 'mainstream' dos economistas norte-americanos. Em 1984 publicou "The Policy Game", em que defende o livre comércio. Contudo, inflectiu depois a opinião ao reconhecer "a erosão provocada pelo globalismo na economia norte-americana". É um especialista no desafio da economia chinesa, sobre a qual publicou dois livros, o primeiro deles sob a chancela do Finantial Times. A guerra comercial com a China é, para ele, uma inevitabilidade.

Doutorado em economia por Harvard, Navarro é um personagem prolixo, que cedo se enfronhou na política. Já em 1992 decidiu concorrer ao cargo de 'mayor' de S. Diego, Califórnia, não chegando contudo a vencer a eleição. Alternou as suas preferências entre os democratas e os republicanos, posicionando-se, em 2016, como conselheiro económico na campanha de Trump. Antes, envolvera-se na contestação da eleição presidencial de 2020 e acabou sentenciado a passar quatro meses na prisão e pagar 9.500 dólares de multa. Procurá-lo no Google resulta numa catadupa de notícias respeitantes aos seus processos judiciais.

Trump, nas certeiras palavras de Clara Ferreira Alves, um "génio do marketing", é o rosto de uma equipa coesa e consistente, a que não faltam nem ideias nem dinheiro.

Seria interessante fazer um diagrama da equipa de Trump e ver os nomes que nele constam, bem como olhar de realce para o respectivo passado político. São invariavelmente oriundos do campo "democrático". A começar por Navarro, que apoiou Hilary Clinton, a mais detestada entre os Democratas, passando por inúmera gente muito poderosa, desde o influente e bilionário da tecnologia Peter Thiel, que apoiava De Santis contra Trump e financiou Jonh D. Vance, a Elon Musk, também ele um ex-apoiante dos democratas. A falange de Trump conta ainda com nomes como Jeff Bezos (Amazon), Sam Alton, IA, & ETC.

Os Estados Unidos têm uma dívida incomportável, sobretudo quando os progressos da economia chinesa começam a fazer tremer o império do dólar. Navarro acusa mesmo alguns parceiros, como a Alemanha e o Japão de fazerem "batota com a respectiva moeda".

Donald Trump é o rosto de uma revolução proteccionista na economia norte-americana, com o efeito geopolítico que isso tem. Vê-lo, folcloricamente, como um excêntrico isolado ou um narcisista descontrolado com ambições antidemocráticas é coisa que entretém as audiências mas não deixa perceber nada do que se está a passar.

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