O ESPECTÁCULO DA GUERRA

Desde 24 de Fevereiro a figura mais mediática do planeta passou a ser (em vez de Trump) Vladomir Zelensky, presidente da Ucrânia e ex-comediante de grande popularidade na Ucrânia e Rússia
Antes da guerra na Ucrânia, com a invasão do território do país pelo exército da Federação Russa a 24 de Fevereiro, passar a ser o tema principal do espectáculo em que vivemos, Donald Trump dominou a cena global. Trump vem dos negócios de sucesso e bem celebrados, mas também do "show-bizz": protagonizou um dos programas televisivos de maior audiência nos Estados Unidos e, já antes disso, fazia frequentemente manchetes e capas nos media, com a sua Trump Tower a glorificar, em sofisticação, uma Nova Iorque renovada e pujante no centro do mundo.
Desde 24 de Fevereiro a figura mais mediática do planeta passou a ser Vladomir Zelensky, presidente da Ucrânia e ex-comediante de grande popularidade na Ucrânia e Rússia. Portanto, outro homem que provém da indústria do espectáculo.
O fenómeno (figuras com sucesso no mundo do espectáculo passarem a pontificar no mundo da política) não é novo, sobretudo nos Estados Unidos, onde Reagan foi um ex-actor (por pouco não fez as vezes de Bogart em Casablanca) e outros personagens da indústria do espectáculo assumiram já comandos na política. E pelo mundo multiplicam-se os exemplos dos agentes do espectáculo na política. Foi o caso, meteórico, do palhaço Bepp Grillo em Itália, por exemplo.
Mesmo quando os novos agentes da política não carregam um curriculo da indústria do espectáculo, dão-se a conhecer e treinam as suas virtudes performativas nos media. Em Portugal Marcelo Rebelo de Sousa vem do jornalismo e do comentário político televisivo de grande audiência, Ventura entrou no "circo" pela porta do popularíssimo comentário desportivo. A tendência vem de trás: Portas foi director de um dos semanários mais influentes (e mais "mediáticos") e Costa assentou, por muito tempo, arraiais como comentador residente num programa de debate político televisivo influente.
É da natureza do capitalismo colocar a sociedade e a política num registo espectacular, com os media a fazer precisamente o que o nome lhes dita: mediar as relações sociais.
A espectacularização do conflito na Ucrânia reflecte blocos geopolíticos rivais, que correspondem a capitalismos rivais. O modelo russo, herdado da burocracia e, curiosamente, "convertido" ao mercado pelos conselheiros norte-americanos, tem a "particularidade" de estar dotado de capacidade de destruição nuclear equivalente à norte-americana. Não é tolerado, pelos vistos, pelo modelo capitalista ocidental, ou pelos interesses que, sendo globais, são oriundos do ocidente.
O modelo de capitalismo russo associado a uma liderança política forte ameaçaria assim o sistema, até agora, centralizado no império norte-americano, a avaliar pela reacção ocidental à invasão russa da Ucrânia. Esta, constituindo uma violação do direito internacional (ainda que com vistosos precedentes na invasão do Iraque e Líbia pelos norte-americanos, só para citar dos dos casos mais flagrantes), dá-se na sequência de uma estranha acumulação de problemas muito graves, desde a segurança de fronteiras a excessos nacionalistas em prejuízo da população ucraniana pró-russa.
O impacto sobre a economia internacional é brutal, pulverizando as expectativas de retoma económica após os sérios danos (interrupção das cadeias de produção, surgimento da inflação) infligidos pela pandemia.
A resposta das populações à recessão (instalada nos Estados Unidos e prestes a instalar-se na Alemanha) será muito desfavorável para os governos ocidentais. Estes, contudo, acham que vale a pena prosseguir uma estratégia guerreira.
Os ocidentais participam no conflito sentados no sofá a assistir às manipulações televisivas. Enquanto isso vão empobrecendo. Marcas e grandes empórios saíram da Rússia. Mais de 2.500 empresas deixaram o país. Se devido às sanções ou para fazer uma declaração política pungente de apoio à "democracia liberal", ou uma e outra, não se sabe muito ao certo. Mas que saíram, saíram...
A "direita liberal" já disse que quer derrotar a Rússia (é esse o mote actual de Zelensky, a quem cumpre dizer que está por tudo, até pela guerra nuclear), não tanto porque invadiu a Ucrânia, mas porque representa uma "ameaça", na linguagem da Nato. A China já está embrulhada no rol das "ameaças civilizacionais".
A Rússia, por ser grande exportadora de matérias-primas essenciais, só por si desiquilibra tudo, como está à vista.
Ora, a China não se impõe por exportar matérias-primas, a sua economia, tecnologicamente muito mais evoluída que a russa, tem capacidade para competir em mercados importantes, desde a área financeira da banca e seguros à produção e distribuição de energia, gestão portuária, maquinaria, produtos de consumo, incluindo os electrónicos.
A China traz um desafio maior ao bloco ocidental: testar se os modelos políticos e económicos se impõem pela força ou pelos resultados, mesmo que na sua tradução espectacular e totalitária (uma dimensão comum à China e ao Ocidente). Ou seja, para os cidadãos, que é o que interessa, os resultados da governação, proporcionam, ou não, em última análise, maior bem-estar social e económico?
O espectáculo ocidental sobre a Ucrânia mal supera as suas fronteiras (ainda que a artilharia seja pesada) e não chega proibir o único "broadcast" internacional russo dentro dessas mesmas fronteiras para impedir que os resultados económicos da guerra em que se envolveu tragam descontentamento, revolta e irrupções sociais.
China, Rússia e outros países emergentes não decalcam nem o modelo político nem a cultura das chamadas 'economias avançadas', que incluem dois países asiáticos. Na China, na Rússia e noutros países emergentes o espectáculo é outro. Pôr em marcha uma cruzada contra eles em nome da superioridade da "civilização ocidental" é primariamente colonialista e, como tal, um insulto. Fazer-lhes guerra pelo que são é acenar com uma guerra de extinção a sério.