O Discurso do Presidente

01-03-2022

Enquanto a discussão sobre fronteiras de segurança desemboca numa guerra, a que Moscovo chama "operação especial", com a invasão da Ucrânia pelas tropas da Federação Russa, Biden, presidente dos Estados Unidos, potência que controla a NATO, aliança militar cuja presença na fronteira russa é considerada uma ameaça directa pelo Kremlin, irá jogar a sua sobrevivência nesta atmosfera, pesadíssima, de súbita e brutal reaparição da "guerra fria". Biden está em baixo nas sondagens, depois de desapontar a ala mais radical do Partido Republicano, não cumprir algumas promessas eleitorais, retirar atabalhoadamente as forças norte-americanas do Afeganistão e falhar reformas sociais prometidas.

Num momento em que os apoiantes de Trump dominam o Partido Republicano e marcam pontos nas preferências da população norte-americana, Biden arrisca-se a uma derrota severa nas próximas eleições para o Congresso. Para Joe Biden uma mobilização da atenção do eleitorado norte-americano para a importância da Nato e a ameaça russa, exemplificada na invasão da Ucrânia, pode constituir a "fuga em frente" para a sua actual fragilidade.

O problema é que uma boa parte dos eleitores norte-americanos nasceram no pós-guerra fria, são dificilmente sensibilizáveis para o tema "ameaça russa na Europa". De acordo com o jornal Público de 1/3/22 "a relação entre a idade dos eleitores norte-americanos e as suas opiniões sobre a crise na Europa está patente nas sondagens. Num estudo do instituto YouGov, de 11 de Fevereiro, 61% dos inquiridos dos 18 aos 29 anos disseram que os EUA devem manter-se neutrais no conflito; e 61% dos que têm mais de 65 anos disseram que o país deve apoiar a Ucrânia".

Biden terá pois, no seu discurso de hoje (1 de Março nos Estados Unidos, 2 de Março na Europa) sobre o "Estado da União", que explicar aos seus compatriotas que o combate à Federação Russa no palco europeu é uma prioridade nacional e uma exigência patriótica. Além, adivinha-se, de falar de assuntos que, para já, interessam mais aos norte-americanos do que a guerra na Ucrânia: a inflação interna, os efeitos da pandemia ou a nomeação de um novo juiz para o Supremo Tribunal norte-americano.

O presidente dos Estados Unidos não referirá certamente que no mais ou menos imprevisível novo quadro de segurança europeia, militar e económica, o "velho continente" terá de alterar o aprovisionamento das fontes de energia que permitem o funcionamento das suas economias e das suas sociedades. Ou seja, não poderá depender do gás natural que compra à Rússia. E os Estados Unidos são o primeiro produtor mundial de gás natural liquefeito (LNG), produto extraído do fraccionamento do xisto. Que deverá, para substituir o gás russo, entrar na Europa pelo porto português de Sines, com a França a deixar cair a sua oposição a um novo gasoduto trans-europeu, que já tem o acordo de Portugal e Espanha, mas que não passava os Pirenéus. Aqui está uma fronteira que cai, enquanto mais a Leste a questão da militarização das fronteiras originou uma guerra, abriu uma nova corrida aos armamentos, com a Alemanha a abandonar a sua posição pós-guerra e a anunciar um reforço de nada menos que 100 mil milhões de euros na defesa e vai mudar drasticamente a geopolítica mundial.

Não se sabe bem é em que sentido. As próximas semanas, ou mesmo os próximos dias, poderão trazer novidades quanto a "alinhamentos" e "neutralidades", quando países da Ásia, África e América Latina tiverem de formalizar a sua posição face ao conflito.

O quadro militar e geopolítico é muito incerto. O que parece certo é que a economia, já confrontada com o regresso da inflação e dos juros, e procurando recuperar das rupturas nas cadeias de fornecimento e distribuição provocadas pela pandemia, vai conhecer agora novos e terríveis obstáculos, com o isolamento económico da Rússia imposto pelas sanções a produzir os efeitos negativos. Sabe-se que as sanções são sempre contornáveis, mas mesmo assim o impacto da falta de fornecimento de cereais e minerais russos não será pequeno. Já não falando do gás natural russo, que, por enquanto, continua a ser pago independentemente das restantes sanções. Os preços da energia disparam, com o petróleo (brent) a instalar-se acima dos 100 dólares e o desenrolar do conflito poderá elevar o preço do crude para patamares da ordem dos 120 dólares, atingindo os preços que acompanharam uma crise profunda da economia ocidental.

Estamos perante nova crise. Está-se muito pior.

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