PRESIDENCIAIS

As próximas eleições presidenciais em Portugal, completamente manipuladas, são mais uma demonstração de que a "democracia liberal" nem é democrática nem é liberal
A censura pura e dura transmutou-se em "critério editorial", algo cuja definição constitui uma perfeita incógnita. Quem o dita? Com que legitimidade?
O exercício da livre expressão e o acesso ao mercado político é hoje drasticamente condicionado pelos tais "critérios editoriais" que, na verdade, reflectem convicções e preconceitos pessoais e interesses políticos e comerciais.
O protesto dos eleitores poderá bem passar por votar nos candidatos excluídos. Seria uma prova de vida da democracia numas eleições que a excluem
A comunicação social estabelecida trocou a objectividade pelo activismo militante e as eleições converteram-se num espectáculo coreografado e dirigido pela casta mediática. Os editores e as suas preferências e critérios acham natural sobreporem-se a tudo, inclusive à Constituição, ou seja, ao instrumento que plasma, para o liberalismo, a relação contratual entre governantes e governados.
O actual exemplo português é mais do que elucidativo: são as televisões que escolhem quais os candidatos às eleições presidenciais, marcadas para Janeiro, que deverão ser popularizados, promovidos, comentados, classificados e votados; os restantes são pura e simplesmente excluídos. A representação exclui a realidade.
"Igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas", é o que estabelece a Constituição da República Portuguesa, no seu art.º 113, número 3, alínea b). Não há critério "editorial" que se sobreponha a isto. Ou antes, não deveria haver, pois, na realidade, há. O poder marimba-se na legalidade. Só a invoca quando lhe interessa fazê-lo.
Os media atropelam, com impunidade e ostentada perversão, a Constituição, que condensa as regras escritas sob a forma de lei em que assenta a sociedade, e quase ninguém, aparentemente, se incomoda muito com o assunto.
A ser assim, a batota domina as próximas eleições para a Presidência da República Portuguesa. Uma parte dos candidatos não conseguirá fazer chegar a sua personalidade, as suas propostas, os seus argumentos aos eleitores através dos media tradicionais, designadamente a televisão. E o que não passa na televisão não existe. Por mais que se se esforcem terão muitas dificuldades em dar prova de vida.
O protesto dos eleitores poderá bem passar por votar nos candidatos excluídos. Seria uma prova de vida da democracia numas eleições que a excluem.