O E6

As economias mais fortes da União Europeia juntaram-se no E6, o que significa que se preparam para deitar pela janela o princípio da unanimidade, estabelecido para garantir a soberania dos Estados-membros. É a consagração política da "Europa a duas velocidades"
Na Europa os Estados-membros mais fortes decidiram criar o E6. Uma letra e um número que nada dizem aos cidadãos europeus, absorvidos por outros problemas, como o do fraco crescimento das economias, o custo de vida, a competitividade sofrível, a energia cara, a desindustrialização, o impacto da emigração, o controlo da informação e da digitalização pelos Estados, a segurança, a interminável guerra na Ucrânia.
E6? O que é? Trata-se de uma "estrutura informal" que reúne a maiores economia da União: Alemanha, França, Itália, Espanha, Países Baixos e...Polónia. A inclusão da Polónia no grupo é incontornável, o país é grande demais (em território, na economia, na capacidade militar) para ficar de fora. O actual primeiro-ministro polaco, Donald Tusk é um aliado de Bruxelas, embora este alinhamento no clube dos maiores prejudique a sua influência na Europa Central.
Em causa não está só o respeito pelos tratados de União, que estabelecem a unanimidade nas decisões acautelando os interesses dos membros "menos fortes", como Portugal, como se consagra o dispositivo sempre desmentido em juras sucessivas de vários dirigentes europeus da "Europa a duas velocidades". Em princípio o "projecto democrático europeu" continua aberto à participação de todos os aderentes, havendo, no entanto, uns que mandam claramente mais para os outros. Em princípio, o "projecto democrático europeu" continua aberto à participação de todos os aderentes, parecendo que se reconhece agora, no entanto, que há uns que mandam claramente mais do que os outros. Numa Europa que se gaba à exaustão, diariamente, de "ter princípios", enquanto lhe escasseia, cada vez mais, todo o resto, só os optimistas esperariam coisa diferente.
As coisas não correm bem. O Presidente do Conselho Europeu, António Costa, decidiu, numa tentativa de moderar a cacofonia europeia, promover uma reunião dos associados. Se a coisa corresse bem amealharia algum protagonismo. Mas correu mal, com os dirigentes de algumas das grandes economias, com exclusão da Espanha, a encontrarem-se primeiro, à socapa, deixando o lugar vago no almoço aprazado com os restantes comensais comunitários. O chamado eixo franco-germânico não se entende. Macron quer vender armas e pôr os norte-americanos fora do negócio. Friedrich Merz, o Chanceler alemão, não está de acordo e continua a considerar indispensável o apoio vindo do outro lado do Atlântico.
A Europa jura repetida e pujantemente os seus "valores", mas descarta-os com relativa facilidade, como é o caso do preço a pagar pelas emissões de carbono na Alemanha, que entraram em época de saldos.
Do plano desenhado por Mário Draghi (ex-presidente do Banco Central Europeu), e muito celebrado por altura da sua apresentação, com vista à recuperação económica e tecnológica da Europa, apenas 15% terão merecido, até agora, alguma atenção. O que não impede a Comissão Europeia, e sobretudo a sua chefe, de extravasar as competências que lhe são atribuídas (zelar pelo funcionamento do Mercado Interno) entregando-se a um frenesim de sentenças sobre os riscos que garante pairarem sobre a segurança e defesa da União.
A Europa está francamente atrás das grandes potências em tecnologia avançada e de consumo e em matéria de Inteligência Artificial. O seu maior trunfo, a base industrial, desmorona-se com a elevação dos preços da energia.
Um mercado de perto de perto de 500 milhões de consumidores é apetecível mas não chega para se tornar uma superpotência. Principalmente se esses consumidores forem empobrecendo...