DESPERDÍCIO LUSO

O que é que países pequenos, como Portugal, cada vez mais periférico num mapa da União Europeia que se quer 'alargado', perdem com uma ordem internacional mais multilateral? Nada.
A crise da dívida é mais uma que pode estourar num mundo tumultuoso, suscitando um pânico adicional sobre uma economia global que alguns países querem que seja cada vez menos globalizada. Há mais de três anos que não se fazem reestruturações de dívidas e há mais de duas dezenas de países a rebentar pela costura da bancarrota sem solução à vista. A China, o maior credor mundial, e o Fundo Monetário Internacional (FMI), especialista nas receitas de resgates, não se entendem. Há casos, como o do Sri Lanka, refere "The Economist", em que os dois principais credores, no caso China e Índia, têm de negociar a reestruturação dos seus créditos em salas separadas.
Enquanto se vai empurrando o problema com a barriga será prudente não brincar com dívidas públicas excessivas face ao produto dos diferentes países. O preço a pagar pela leviandade será muito elevado.
Este é mais um mau presságio do mundo actual, vivenciando o seu século XXI de todos os prodígios, um deleite apenas perturbado por forças consideradas retrógadas pelo chamado Ocidente, ou antes, abalado inconvenientemente pela História. Uma maçada a incomodar o formidável avanço civilizacional do Ocidente. Um karma inoportuno.
A passagem a uma nova ordem internacional multipolar, ditada pelo declínio norte-americano e europeu, é tudo menos pacífica. Estados Unidos e Europa já não são o que eram, já não conseguem impor as suas regras, mas recusam-se a reconhecê-lo e reagem violentamente à perda de privilégios. Sem argumentos aceitáveis e, sobretudo, uma estratégia minimamente percebível o chamado Ocidente (há uma versão "alargada", mas ainda não entendemos do que se trata) sobe de tom na retórica beligerante em relação à guerra na Ucrânia e apoia o massacre israelita em Gaza no meio de um embaraço total, face às imagens que, em 'mainstream', chegam à opinião pública dos diferentes países. A juntar a isto, a querela sobre Taiwan com a China mantém o risco de nova guerra a pairar sobre o Índico-Pacífico.
O que é que países pequenos, como Portugal, cada vez mais periférico num mapa da União Europeia que se quer 'alargado' perdem com uma ordem internacional mais multilateral? Nada.
Portugal, por exemplo, detém uma mais-valia por pertencer a uma comunidade de países que adoptaram o português como língua oficial, entre os quais uma potência emergente, o Brasil, e dois países africanos com dimensão e recursos: Angola e Moçambique. Uma vantagem que tem sido abundantemente desaproveitada.
Os portugueses preferem entreter-se com polémicas domésticas ridículas mandando às malvas o interesse de Estado, do país. A ilustrar esta pacóvia e proverbial incompetência dos chefes lusos está a caricata atitude que recentemente assumiram face à notícia de um acordo entre a Federação Russa e S. Tomé e Príncipe. Uma vergonha.
A governação portuguesa também revela uma irresponsabilidade insuperável face à hipótese da remoção da regra da unanimidade no Conselho Europeu, na possibilidade de deixar de ser assegurada a cada país-membro da UE um comissário no seu órgão dirigente, e não eleito, e quanto às consequências do 'alargamento' e do fecho da torneira dos fundos europeus. Alinha galhardamente pelo discurso oficial da burocracia europeia que, mais do que se bater pela expansão através do 'alargamento', se confronta com a própria sobrevivência.