A Superioridade Moral

A globalização tirou muita gente da pobreza extrema. Os pobres passaram a ser menos pobres e em alguns países não desenvolvidos esboçaram-se mesmo novas classes médias. A intensificação da divisão internacional do trabalho integrou, pelo salário, cada vez mais gente dos países menos desenvolvidas na economia mundial e o respectivo rendimento, bem como o acesso a bens básicos, melhorou.
Os pobres ficaram menos pobres e os mais ricos muito mais ricos. As cadeias de valor distenderam-se, favorecidas pelos ganhos nas comunicações e na logística. As indústrias foram transferidas dos países desenvolvidos, designadamente da América do Norte e da Europa, para países e regiões de mão-de-obra mais barata. O que inverteu a integração das classes operárias no 'welfare state'. Criaram-se, no chamado Ocidente, anti-corpos nacionalistas.
A cultura ocidental foi e é a cultura dominante na galopada da globalização. Os seus valores formaram-se numa mescla de reivindicações, muitas delas legítimas, de minorias culturalmente muito ativas, assente num vago liberalismo social e político que não se sabe bem o que é, até porque, historicamente, o liberalismo já foi muitas coisas e não há, verdadeiramente, um corpo coeso de doutrina liberal. A cultura ocidental é ainda amplificada pela clara supremacia que Estados Unidos, sobretudo, e Europa têm nos media e na produção de entretenimento.
Há, contudo, culturas que surpreendentemente sobreviveram, adaptaram-se ao capitalismo e são hoje países com poder na ordem mundial. China, Índia, África do Sul, Rússia, Brasil são novas potências económicas e as suas sociedades e culturas, diferentes uma das outras nos valores que partilham, não correspondem exatamente ao que o ocidente acha ser o padrão cultural universal na era da globalização, o seu. Que, em última análise, sustenta essa ambição na "superioridade moral", uma ideia de má memória e que é um título de um dos mais interessantes livros de Álvaro Cunhal, "A Superioridade Moral dos Comunistas". Há dois textos de referência sobre o tema no movimento comunista, o de Cunhal e o de Trotstky, cuja tradução pode ser "A Moral Deles e a Nossa".
Esta distopia, colocada agora à frente dos nossos olhos, será tudo menos liberal, com o retrocesso da confiança e da maior integração económica, um dos factores que mais aproxima os povos e afasta a possibilidade de conflitos militares
Entre as novas potências destaca-se o caso da China, um modelo económico de inequívoco sucesso que subordina o poder empresarial à esfera política e mantém, contra os valores ocidentais, um regime político não liberal, com o partido único, que continua a ser comunista, a monopolizar o exercício democrático, sob a fórmula do velho centralismo democrático.
Se estes diversos mundos do nosso mundo global não dispensam o ocidente, este também precisa deles. Não haverá acumulação se o mercado global não continuar a crescer, com mais ou menos desigualdades. Muito provavelmente com mais desigualdades e mais problemas de equilíbrio ambiental.
Ora, os dias que vivemos arriscam uma maior separação entre blocos de países, pressentindo-se que o ocidente possa estar a limitar o seu à América do Norte, Europa e pouco mais. Fora dele é natural que os outros grandes países cooperem entre si. A China poderá ver comprometida, ou diminuída, a sua cooperação com a Europa e questionado o seu projeto de médio e longo prazo Road and Belt (nova rota da seda). A sua estratégia e o mapa da sua rota serão reformulados face ao afastamento da jangada "ocidental".
Tudo isto envolve uma nova corrida aos armamentos e o aumento muito significativo nos gastos na componente militar dos blocos políticos e económicos.
Esta distopia, colocada agora à frente dos nossos olhos, será tudo menos liberal, com o retrocesso da confiança e da realização de uma maior integração económica, um dos factores que mais aproxima os povos e afasta a possibilidade de conflitos militares.