A "ORDEM LIBERAL" NUNCA EXISTIU

26-01-2026
O império norte-americano contra-ataca sem recorrer ao arsenal propagandístico usual. O lado cru da força basta-lhe como argumento. Que se lixem as "regras" e os pretextos "democráticos" e "civilizacionais". O que põe a clientela política, os intelectuais de serviço e os propagandistas mediáticos em roda livre. São órfãos de uma ficção: a "ordem internacional liberal"

O Presidente dos Estados Unidos declarou, publicamente, que não precisa para nada da ordem internacional. Para Donald Trump os limites à actuação externa norte-americana não são fixados por quaisquer "regras", mas pela sua própria moral.

Assim, a designada "ordem internacional liberal", supostamente assente em "regras", é descartada. Os seus criadores, os  Estados Unidos, livram-se de criação.  Tal "ordem" só existiu nos alfobres da propaganda mediática. Nunca passou de uma mentira. O "excepcionalismo" norte-americano demonstra-o. Ditou as "regras" e promoveu as instituições que as suportavam, mas só as cumpriu quando não colidiram com os seus interesses. Agora, perante a realidade pura e dura, a ideologia, alimento da propaganda, esfarela-se.

Só há mesmo uma explicação para tantos teimarem em esfalfarem-se, se possível nas trincheiras do comentário, na defesa desta fantasia utilizada para mistificar e encobrir realidades e justificar intervenções que muito, pouco ou nada têm de democrático e de liberal. É que com a realidade que ficcionaram a fugir-lhes debaixo dos pés ficam órfãos da mentira e reféns do ridículo. Os comentaristas de serviço e os políticos com assomos de epifanias fora de prazo tropeçam agora no desespero próprio.

A desorientação exalada no dia-a-dia por "analistas" incluídos na colectânea de cromos dos 'media' oficiais foi recentemente consagrada nos desencontros de Davos pelas elites com lugar cativo no fórum, num desgraçado espectáculo a que não faltaram laivos de tragicomédia. Exemplo disso é a excitação provocada pela intervenção do primeiro-ministro canadiano no evento, Mark Carney. Um discurso bem construído, sem dúvida, mas que não trouxe nada que não se soubesse.

Origens

Recuemos à origem da "ordem liberal". As bases do pensamento liberal remontam ao século XVII, lançadas pelo iluminista John Lock. Comecemos pelo seu impacto sobre a economia, que foi enorme. Adam Smith e David Ricardo deram-lhe um impulso notável na teoria económica, ao procurar, por exemplo, demonstrar que a liberdade de trocas entre os países acabava sempre por ser benéfica para ambos. Mais modernamente Michael Porter, numa revisão da matéria, designou esse benefício por "vantagens comparativas".

A intensificação da internacionalização das economias, da interdependência entre mercados, abençoou a globalização do sistema capitalista. A mente delirante de Fukyama descortinou, no termo deste processo, o "Fim da História".

A "ordem internacional liberal" seria então a faceta política e ideológica do sucesso da aplicação das teses do liberalismo sobre as relações económicas internacionais, servindo de suporte ao alastramento da globalização, promovida sob a égide dos Estados Unidos. Em suma, legitimou a vantagem política, ideológica e "moral" da internacionalização económica.

Mas, aparte o 'libreto' ideológico, a sua base radicou sempre na economia e na monetarização. Nunca foi mais que a ordem ancorada no dólar, cujo curso como moeda internacional corresponde à supremacia efectiva norte-americana sobre o planeta. Esta consolidou-se com o termo da II guerra mundial e foi revigorada após a queda da União Soviética.

Ora, esta hegemonia, ou antes, esta "ordem liberal" não dispensou inúmeras intervenções militares externas à revelia das tais "regras" que supostamente a corporizavam. Daí que as chamadas 'regras' da política internacional consagrem o "excepcionalismo" norte-americano. Sós ou acompanhados, os Estados Unidos intervieram onde quiseram e quando quiseram. 

Após a expansão territorial, traduzida em várias anexações e compras no séc. XIX (compra da Louisiana à França (1803), da Flórida à Espanha (1819) divisão do Oregon, com o Reino Unido (1846). Aquisição de cerca de metade do território mexicano após a guerra com o México (1846-1848) – Califórnia, Novo México, Nevada, Utah, Arizona, partes do Colorado e do Wyoming  e  anexação do Texas (1845). Seguiu-se ao período de expansão territorial, que implicou o quase extermínio dos ameríndios) a  desmultiplicação do poder económico e militar pelo planeta. O século XX é o 'século americano', o século da afirmação dos Estados Unidos como a grande potência imperialista. O título da célebre obra de Kwame Nkrumah "O Imperialismo Último Estado do Colonialismo" faz justiça ao percurso feito pelo Tio Sam, desde a doutrina Monroe (1823), que se opunha a novas colonizações europeias das Américas, até à aplicação da doutrina Truman que, com o despontar da Guerra Fria, multiplicou as intervenções norte-americanas pelo mundo fora sob a bandeira da luta contra o comunismo.

A doutrina Monroe, que preconiza o domínio sobre o "hemisfério ocidental" é levada à letra. Exemplos não faltam para comprová-lo. Em 1954, a CIA promove um golpe de Estado para proteger os interesses da United Fruit Company, impondo uma ditadura militar.

Em Cuba, após uma fracassada 'invasão da Baía dos Porcos, os Estados Unidos instauraram, em 1961, um bloqueio económico que dura até hoje. No Chile, promoveram, em 1973, um golpe de Estado contra o regime democrático de Salvador Allende, substituindo-o pela ditadura militar de Augusto Pinochet. Invadiram Granada em 1983 e o Panamá em 1989. Aqui conduziram a primeira "extracção" aparatosa, a de Manuel Noriega. Na Nicarágua várias investidas não conseguiram, contudo, apear os sandinistas.

O poder militar norte-americano irrompeu por todo o mundo. Na Ásia, as guerras da Coreia (1950-1953) e Vietname (1955-1975), corresponderam à tentativa de instaurar ditaduras anticomunistas com o apoio da CIA.

Com a derrocada da União Soviética e o termo da Guerra Fria, o imperialismo norte-americano impôs-se na Guerra do Golfo, no Iraque, país que invadiu e desmantelou sob a acusação falsa do regime possuir armas químicas, na Síria, na ex-Jugoslávia, onde, em 1999, as forças norte-americanas à cabeça da NATO, bombardearam Belgrado durante 78 dias, na Líbia, onde Gaddafi foi assassinado com macabra crueldade e o país convertido num Estado falhado. No Afeganistão, a ocupação norte-americana, tal como a da Rússia, correu manifestamente mal, descambando numa atrapalhada retirada.

Na Ucrânia, apoiaram, em 2014, um golpe contra o governo democraticamente eleito, com a presença eufórica de personalidades de proa como o senador republicano John Mc Caine, influente em política externa e Vitoria Nuland, então secretária de Estado para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, na praça Maidan, palco da operação. Nuland, além de discursar, tal como McCain, entreteve-se, com desvelo, a distribuir pãezinhos aos manifestantes.

Estes, apenas alguns exemplos.

A alavanca do poder

Desde o termo de Bretton-Woods, em 1971, que o poder do dólar deixou de ser alicerçado na possibilidade de poder ser trocado por ouro para passar a ancorar a sua força no petróleo, o qual, após acordo com a Arábia Saudita, passou a ser transacionado apenas na moeda norte-americana. É na versão petrodólar que reside a sua grande força. E é a prevalência do dólar como moeda internacional que impede os Estados Unidos de sucumbirem economicamente sob o peso da sua dívida colossal. A alavanca do poder norte-americano é também a sua maior vulnerabilidade.

Não surpreende que o poder norte-americano reaja brutalmente a qualquer ousadia de transaccionar petróleo noutras moedas que não o dólar. Sadam Hussein e Mohammad Gaddafi conheceram na pele o preço desse atrevimento.

Ora, se os EUA deixarem de poder imprimir dólares para, inclusive, pagar a dívida, que já ascende a 38 triliões (milhões de milhões) de…dólares, a economia norte-americana colapsa e o império desmorona.

A guerra pacífica?

Actualmente a maior ameaça à hegemonia global norte-americana não vem da Rússia. Putin limitou-se a reclamar uma nova arquitectura para a defesa europeia e fê-lo com muita clareza na Conferência de Munique, em 2007) face ao avanço da NATO até às fronteiras da Rússia, com mísseis com capacidade nuclear, instalados em países da colapsada esfera de influência soviética e capazes de atingir Moscovo e S. Petersburgo em escassos minutos. A expansão da Nato até às fronteiras da Federação Russa foi uma corrida em contrarrelógio. Estacou em 2022 na Ucrânia com a invasão militar russa, de que resultou uma guerra brutal e prolongada e também o maior revés, porventura fatal, suportado pela União Europeia, que se deixara ficar para trás no processo de "globalização competitiva" - em poucas décadas a riqueza que produz anualmente (PIB) deixou de estar a par da gerada nos Estados Unidos para se reduzir à sua metade. A administração Trump percebeu que era um erro persistir numa guerra interminável, perdida e em que não participava directamente o verdadeiro adversário da hegemonia norte-americana: a China.

Na sequência do primeiro mandato de Donald Trump, Joe Biden tentara travar a vertiginosa capacidade de evolução tecnológica do dragão asiático. Foram impostas tarifas. Sem sucesso. Yanis Varoufakis, ex-ministro grego das Finanças, resume bem o resultado: "A China respondeu com uma estratégia magistral em duas frentes. Primeiro, converteu em arma o seu domínio sobre terras raras e minerais críticos, desencadeando um bloqueio nas cadeias de suprimentos que paralisou não tanto a manufatura verde americana, mas sobretudo a europeia e a do Leste Asiático. Em segundo lugar — e de forma mais prejudicial para a posição dos Estados Unidos como líder tecnológico global — a China mobilizou o seu 'whole-nation system' em torno de um único objetivo: a autarquia tecnológica. O resultado foi uma aceleração impressionante da produção doméstica de chips, com a SMIC e a Huawei a alcançar avanços que tornaram o embargo ocidental liderado pelos EUA não apenas obsoleto, mas contraproducente".

É insuspeita a posição do chefe da Nvidia, a empresa nuclear norte-americana para a área das tecnologias avançadas sobre a matéria. Adverte Jensen Huang em entrevista à Time: "A ideia que circulou sobre a descolagem dos EUA da China, é errada, e a nossa dependência mútua é bastante significativa — e mais profunda do que as pessoas imaginam".

Huang, além de destacar a dependência global do sector de inteligência artificial (IA) dos "estudantes brilhantes e dos cientistas brilhantes da China", lembrou que 50% dos investigadores de IA do mundo são chineses ou têm raízes chinesas.

E viu-se como a China reagiu às recentes ofensivas tarifárias de Donald Trump. Não capitulou. Pelo contrário. Domina 90% do mercado da 'spice' contemporânea: as chamadas Terras Raras, o léxico dos minerais críticos para o desenvolvimento das tecnologias mais avançadas.

O actual presidente norte-americano agitou para efeitos eleitorais, e não abandonou, na sua narrativa presente, a bandeira do anti-globalismo. O que, pelos vistos, passa por retomar o domínio do "hemisfério ocidental", e pelo intervencionismo aparatoso no Golfo, áreas geográficas onde a China ganhou séria influência. Por outro lado, os Estados Unidos repõem (ou impõem) vantagens comerciais através de uma agressiva renegociação pautal e procuram comprometer as infraestruturas que os chineses semearam um pouco por todo o lado. E fazem-no recorrendo à sua superioridade militar, à força pura e dura sem subterfúgios ideológicos, dispensando-se de invocar a "ordem internacional liberal" ou a exportação de modelos "democráticos" e "civilizacionais". O rapto de Nicolas Maduro ilustra eloquentemente a nova filosofia de intervenção. O Presidente Trump avisou, é justo recordá-lo, que não precisava da retórica tradicional para nada. Basta-lhe, como acentuámos logo de início, a sua moral. Acontece que as sucessivas e mal-sucedidas experiências norte-americanas em matéria de ocupação de território e catequização dos indígenas pesou decisivamente na "ruptura" com o passado, a qual coloca o resto do chamado "ocidente", e sobretudo os medíocres líderes europeus, em estado de pânico.

O anti-globalismo de Trump sempre nos suscitou muitas interrogações. Não por duvidarmos da sinceridade do objectivo, entranhado no movimento MAGA, dúvida que é, aliás, irrelevante. Mas antes por nos questionarmos sobre a sua viabilidade. A moral de Donald Trump pode, muito provavelmente, não ser suficiente para calibrar o contra-ataque do Império.

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