DIGITALIZAÇÃO

Sobreviver ao futuro

Ficar de fora de uma economia cada vez mais digital é desistir de reduzir custos, conquistar mercado, desenvolver novos produtos, individualizar o cliente. Mais que ficar de fora será ficar para trás. Pior: será não conseguir sobreviver

As quatro marcas mais valiosas do mundo designam empresas tecnológicas: Google, Apple, Amazon e Microsoft. Uma expressão clara do poder das novas tecnologias, colocando as empresas perante o desafio da digitalização. A tecnologia, em movimento acelerado, terá cada vez mais importância no desenvolvimento das sociedades, definindo as hipóteses de crescimento económico.

O novo milénio é digital e será marcado pela automação, pela robótica, pela realidade aumentada e pela inteligência artificial. Quem ficar para trás, países e empresas, no mais prodigioso salto tecnológico que a Humanidade já deu, não terá hipóteses de chegar ao mercado com produtos competitivos. É a tecnologia, a capacidade de incorporá-la, de interiorizá-la nas rotinas da empresa e nos actos dos cidadãos, a capacidade de definir estratégias centradas na digitalização, que dita a nova fronteira do desenvolvimento.

As novas tecnologias digitais, que convertem tudo em código digital, reduzem custos, aumentam a flexibilidade das empresas, permitem o acesso e abrem novos mercados, possibilitam novos produtos e serviços, alteram (ou devem alterar) o modelo de negócios, as formas de gestão e os ritmos de formação e actualização dos recursos humanos.

Segundo um estudo da consultora McKinsey são as empresas mais lucrativas as que parecem corresponder melhor ao esforço de digitalização. São empresas que fazem hoje o seu recrutamento de talentos no mercado global. São também as mais perspicazes quanto à oportunidade de aquisições. Os tradicionais construtores de automóveis teriam poupado muito dinheiro no desenvolvimento dos carros eléctricos se tivessem comprado a Tesla logo no início.

Quando as novas tecnologias digitais de conversão, processamento e armazenamento de dados e de comunicação sofrem os impactos dos avanços da nanotecnologia (recomposição atómica com aplicação em semicondutores, por exemplo, da biotecnologia, a tecnologia molecular, a quântica, que possibilita que os bites sejam simultaneamente 0 e 1, abrindo caminho a verdadeiros supercomputadores, abrem-se formidáveis janelas sobre o futuro. E também terríveis desafios.

Serão as novas tecnologias, com todos os riscos que encerram, a remover antigos estigmas sociais, designadamente de raça e género? Ou encontramo-nos às portas do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, o autor que descreveu a felicidade futura dentro de cápsulas ministradas a cidadãos obedientes e padronizados? Talvez sim, talvez não.

Acima de tudo, o desafio é grande e o ritmo da digitalização impõe-se às empresas. que mostram, em todo o mundo, sérias dificuldades em acompanhá-lo.

Hoje dispomos, na palma da mão, de um aparelho, o smartphone, com uma capacidade de processamento que multiplica por 100 o poder dos computadores que puseram, em 1969, o primeiro homem na Lua. A fibra óptica, em que os dados são transmitidos por impulsos de luz, envolve o planeta e a capacidade GSM de transporte de dados já vai na quinta geração.

ENTRAR NUM NOVO MUNDO

Para as empresas, a adaptação à digitalização começa por ser uma questão de sobrevivência. É vasta a agenda estratégica a adoptar, que passa pela definição de um novo modelo de negócio e uma diferente abordagem das marcas, já não essencialmente viradas para a fidelização.

As novas plataformas digitais permitem o armazenamento e intercâmbio de uma grande massa de dados, fornecendo informações detalhadas sobre consumidores e concorrentes sem precedentes. A realocação de talentos digitais, a adequação do modelo de negócio às oportunidades digitais, a reavaliação dos portfólios e a sua própria actualização permanente no negócio digital são algumas das preocupações dos gestores actuais.

Para pelo menos se aguentarem no mercado, as empresas têm de adaptar-se às práticas digitais de clientes e fornecedores. Para crescerem terão de assentar, cada vez mais, o seu negócio em estratégias digitais. Participar de um 'ecossistema' digital - uma plataforma - dá vantagens consideráveis. Eles impulsionaram o surgimento de novos mercados, gerando efeitos em rede ('network') tidos como impossíveis há uns anos atrás.

São as empresas mais rentáveis, segundo o estudo da McKinsey, as primeiras a tirar partido destes ecossistemas digitais. Se o total das vendas nestes sistemas se fica actualmente por 10% da facturação total das empresas consideradas, um outro estudo da consultora prevê que suba para 30% já em 2025, "tornando as plataformas um elemento ainda mais crítico na estratégia digital".

Estar num ecossistema digital permite uma adaptação mais rápida dos produtos existentes à oferta digitalizada e mesmo a criação de oferta exclusivamente digital. As empresas que, de acordo com o estudo, apresentam melhor desempenho são precisamente aquelas que desenvolvem novos negócios digitais. Por outro lado, o estudo mostra que comprar é, muitas vezes, mais barato e eficaz que desenvolver de raiz. Daí que as empresas que conseguem obter mais sucesso sejam também as que concretizam mais aquisições ou fusões.

Apenas 8% das empresas interpeladas acha que o seu actual modelo de negócio se manterá viável se o sector onde operam mantiver o actual ritmo de digitalização. As restantes estão conscientes que serão ultrapassadas se não inovarem. O que leva os gestores a tomarem iniciativas no domínio das novas tecnologias. No entanto, nem todas as iniciativas digitais tomadas pelos gestores se enquadram em verdadeiras estratégias de mudança face ao novo quadro competitivo. Até porque muitos gestores continuam a ver a digitalização como um suplemento das Tecnologias de Informação (TI), ou apenas como um novo canal de vendas e não como aquilo que ela verdadeiramente significa: a capacidade de ligar pessoas, dispositivos e simples objectos onde quer que eles se encontrem. Em 2025 estarão ligados, em todo o mundo, 20 mil milhões de dispositivos móveis, um número que duplica a população que se prevê que o planeta albergue por essa altura. Isto gera modelos de negócios totalmente novos. É o caso da indústria seguradora que passou a controlar todos os detalhes de um sinistro e a conhecer o comportamento dos condutores em tempo real, algo que altera completamente a sua análise de risco.

Não são só as empresas que lidam directamente com os consumidores a sofrer o abalo da revolução digital. O mesmo acontece, dentro das várias indústrias, com empresas que têm como clientes outras empresas. Ocorre inclusive que, nos três últimos anos, foram sobretudo as empresas que operam na área 'Business to Business' (B2B) a digitalizar a sua oferta. Nelas os custos da digitalização são mais baixos e...mais eficientes.

A internet das coisas, a robótica, a inteligência artificial, a realidade aumentada, abriram novos caminhos à produtividade industrial. Em algumas indústrias os processos de automação robótica já digitalizam entre 50% a 80% das operações de rectaguarda ('back-office').

Se, num espaço de cinco anos, a digitalização vai operar mudanças radicais nos mercados, ditando a sorte das empresas, quando tentamos olhar um pouco mais além, abrem-se os mais, ainda há pouco, improváveis cenários, em que o que se imaginava ficção passa a ser a realidade.

UM ROBOT PODE ROUBAR-LHE O EMPREGO

Dentro de 15 a 20 anos 47% dos empregos nos Estados Unidos serão substituídos por robots, revela um estudo da prestigiada Universidade de Oxford. Ninguém está a salvo. André Oppenheimer, autor de 'Os Robots Estão a Chegar: o Futuro dos Empregos na Era da Automação', confessa que, desde a divulgação das previsões da Universidade de Oxford, nunca mais deixou de pensar no futuro do emprego. Em lugar de banqueiros, advogados, médicos, profissionais do espectáculo teremos robots.

A profecia é destacada num dos últimos números de The New Yorker e, aparentemente, interessa pouco ainda aos países em desenvolvimento, caracterizados por possuírem uma população jovem, em expansão e tendencialmente urbanizada. Com efeito, aos países hoje em desenvolvimento e aos seus vastos contingentes de mão-de-obra mais barata, o cenário de um mercado movido por robots parecerá especulação futurista. Mas não é. Esta revolução, em curso, imprimirá uma outra velocidade aos negócios, mudar-lhes-á as características e impulsionará grandemente a produtividade. O paradigma económico será outro e, num mundo globalizado, irá impor-se. Se os países em desenvolvimento não apanharem este combóio de alta velocidade poderão consolidar em definitivo o seu papel de fornecedores de recursos naturais operados por empresas globais, tonando-se mais selectivo o estatuto de economia emergente.

Não é para já, já? É para daqui a pouco. Os antigos robots vestiam fato de macaco e eram simples executantes, assim como a mão-de-obra, no início da revolução industrial, executava trabalho repetitivo e infernalmente maquinal, uma realidade tão bem ilustrada nos filmes de Charles Chaplin - 'Charlot'. Os novos robots possuem algoritmos, 'pensam', são "inteligência artificial" e "inteligência artificial" com a capacidade de emigrar.

Oppenheimer prevê que a sociedade do futuro será dividida em três grupos. Os membros da elite, capazes de se adaptar às mudanças do panorama tecnológico e os que ganharão mais dinheiro, serão o topo da estratificação social. Um segundo grupo assegurará serviços personalizados à elite, incluindo 'personal trainers', gurus, professores de piano, 'chefs' de cozinha. Finalmente, um último grupo, a maioria, constituído pelos que ficam desempregados e que deverão receber um rendimento básico e universal como compensação de terem sido as vítimas do desemprego tecnológico.

AMBIÇÃO 4.0

A ambição de qualquer país em desenvolvimento é pôr-se a par dos considerados avançados, desenvolvidos, industrializados. Industrializados? Falamos de que tipo industrialização, ou antes, de que fase de industrialização? Estamos a viver a 4ª revolução industrial, ou seja, para empregar a terminologia actual, a era da indústria 4.0. Para trás ficaram a invenção da máquina a vapor, a exploração de petróleo e o desenvolvimento da energia eléctrica, a automação de processos e o surgimento do computador. Em que tecnologia distintiva se apoia esta quarta revolução dos processos que utilizamos para produzir? Resulta de uma intersecção de várias. Não há inteligência artificial sem internet das coisas e esta só tem valor se as informações recolhidas puderem ser examinadas em larga escala nos grandes bases de dados (BIG DATA).

Todas estas tecnologias evoluem a uma velocidade estonteante. A capacidade de processamento actual vai ser multiplicada milhares de vezes. O processamento de um computador quântico deverá, no prazo de dez anos, ser até 10 000 vezes mais rápido que o dos melhores computadores actuais. Nas máquinas actuais os dados guardados na memória podem assumir uma de duas formas: 0 ou 1. Ora, os bits quânticos, ou qubits, podem existir como 0 e 1 ao mesmo tempo.

Para se ter uma ideia do impacto que vai ter este colossal aumento da capacidade de processamento pode dar-se o exemplo das análises genéticas, que demoram actualmente duas semanas a ser feitas. Irão ser realizadas em menos de 1 minuto. Outro exemplo: para quebrar os códigos de todos os sistemas actuais de criptografa - incluindo os dos bancos -, um computador normal demoraria 13 mil milhões de anos. O quântico conseguirá fazê-lo em apenas algumas horas. E imagine-se ainda até onde poderá ir um destes computadores da geração quântica se for combinado com inteligência artificial.


AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS

PRIMEIRA REVOLUÇÃO (1777)

Inovações: máquina a vapor e mecanização inicial da indústria têxtil.

SEGUNDA REVOLUÇÃO (1850)

Inovações: exploração de petróleo, desenvolvimento da energia eléctrica.

TERCEIRA REVOLUÇÃO (A partir de 1970)

Inovações: automação de processos, primeiros robots e utilização de PCs.

QUARTA REVOLUÇÃO (A partir de 2010)

Inovações: simulações virtuais, inteligência artificial, realidade aumentada, impressão 3D


EXEMPLOS DA NOVA ECONOMIA

A utilização das novas tecnologias digitais surge já na base da economia. A EXAME Brasil compilou vários exemplos.

A suíço-sueca ABB, a maior fornecedora de equipamento eléctrico e de transporte do mundo já emprega co-bots, um novo tipo de robot que trabalha lado a lado com os seus funcionários. Os robots iniciais desempenhavam apenas tarefas pré-configuradas. Os braços autónomos dos novos robots conseguem resolver sozinhos qual a melhor maneira de executar uma tarefa. A ABB já utiliza robots do novo tipo na sua fábrica de tomadas na República Tcheca - e o mesmo modelo de robot, por sinal, regeu uma orquestra e o tenor italiano Andrea Bocelli numa demonstração em Setembro do último ano. A ideia era mostrar o que a robótica e a inteligência artificial podem fazer quando se encontram.

DRONES FAST FOOD

Os drones revolucionaram a logística. Os aparelhos da Lawson, uma das maiores redes de conveniência do Japão, sobrevoam, desde o passado mês de Outubro, a cidade de Minamisoma, de 55 000 habitantes, situada a 280 quilómetros a norte de Tóquio, para fazer a entrega de alimentos e bebidas, escolhidos entre 300 opções e vendidos através de smartphone. A entrega de comida feita pelo ar é também uma aposta recente da gigante de comércio electrónico Rakuten, fundada em Tóquio em 1997 e que hoje factura mais de 8

mil milhões de dólares anualmente. De acordo com uma projecção do banco de investimento

Goldman Sachs, a venda de aeronaves não tripuladas para entregas deverá movimentar 9 mil milhões de dólares até 2020 - os drones ficarão com 10% do mercado.

ÓCULOS NOS ELEVADORES

O conglomerado alemão ThyssenKrupp passou a utilizar o Microsoft HoloLens para aumentar a eficiência da manutenção dos seus elevadores e escadas rolantes. Os técnicos da

empresa podem colocar os óculos para aceder ao histórico de problemas do elevador, verificar alertas e ver um desenho esquemático do painel eléctrico. Tudo isto só é possível porque há o envio de dados em tempo real para os servidores da empresa, geridos também pela Microsoft. Esta acumulação de informações, leva a passar a utilizar o poder de processamento na nuvem para descobrir padrões de elevadores que estejam prestes a avariarem-se e actuar antes que as falhas ocorram. Segundo um estudo da consultora Deloitte, o recurso à tecnologia para a manutenção preventiva pode diminuir os custos gerais de manutenção em até 10%.

VÁLVULA INTELIGENTE

O grupo francês Schneider Electric exemplifica como a nova vaga tecnológica chegou ao sector petrolífero. Uma válvula utilizada em plataformas petrolíferas emite informação em tempo real sobre a sua temperatura. Basta que esta sofra uma pequena variação para desencadear-se um alerta no monitor do controlador, que nem tem de estar na plataforma. Ao clicar no aviso abre-se um gráfico com o histórico da variação da temperatura, detectando assim situações irregulares. O técnico responsável tem ainda a possibilidade de saber quando é que o produto foi fabricado, comprado e instalado. Refira-se de 45% da facturação da Schneider Electric, que é da ordem de 25 mil milhões de euros vem de serviços e produtos relacionados com a internet das coisas.

CONTENTOR DE ENERGIA

A empresa de energia Arensis, com sede em Los Angeles, nos Estados Unidos, desenvolveu centrais de energia do tamanho de um contentor para serem utilizadas por prédios de escritórios, fábricas e hospitais. Por meio de processos químicos, a central utiliza restos orgânicos dos clientes - como papel e resto de alimentos - para gerar um gás natural, que, por sua vez, é transformado em energia eléctrica. A cada dez contentores, a geração de energia é de 1 megawatt, energia suficiente para abastecer 200 casas. Mas, em vez de vender as centrais, a empresa vende a energia gerada por elas - e ainda cuida da manutenção.

IMPRESSORA 3D

A HP desenvolveu uma impressora que imprime um objecto em camadas com recurso a reacções químicas, o que poupa tempo e material. A tecnologia consegue construir estruturas em três dimensões (3D), o que uma injecção de plástico comum não consegue fazer, como uma peça porosa. A tecnologia tem potencial para ser utilizada em diferentes áreas, como a medicina, o domínio aeroespacial e a produção de automóveis.

AS TECNOLOGIAS DA QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


São utilizadas individualmente, mas é a sua combinação que define o mundo 4.0

BIG DATA

Análise de um grande volume de dados gerados

por sensores para a descoberta de padrões que

podem ser empregues, por exemplo, para prevenir falhas.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Automatização de decisões e criação

de robots cooperativos.

INTERNET DAS COISAS

Ligação em rede de máquinas e aparelhos,

permitindo a troca de informações entre eles.

REALIDADE MISTA

Recorre a óculos especiais

ou smartphones para a visão raio X

de máquinas, facilitando a manutenção.

IMPRESSÃO 3D

Impressão de peças e objectos plásticos. Permite

a economia de materiais e agilidade na produção.

SIMULAÇÃO VIRTUAL

Conhecida também como gémeo digital,

a simulação em computador utiliza dados reais para

criar cenários e melhorar processos.

Fontes: WEF, BCG e PWC

(Adaptado do texto publicado no nº 76, Abril 2019)

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