Decisão de risco

Decisão de Risco
(Jan 2013, publicado no semanário O País)
Zemeckis, dedicado nos últimos tempos à animação, surpreende-nos com um 'filme de actor' e confia o protagonismo de Decisão de Risco a Denzel Washington, que responde ao desafio com um desempenho brilhante. Um excelente filme sobre a complexidade humana a propósito do heroísmo e do vício
Denzel Washington protagoniza, ao seu melhor nível, um filme que resvala, aparentemente, para o moralismo. Aparentemente. Pois Decisão de Risco (Flight), visto com atenção, condensa um interessante drama sobre a complexidade das nossas opções. Ou, se quiserem, das nossas compulsões. E Robert Zemeckis, o autor de Quem Tramou Roger Rabbit, Regresso ao Futuro e Forrest Gump) oferece-nos uma realização sem subterfúgios tecnológicos. Utiliza todos os meios ao dispor do cinema contemporâneo quando necessário (a sequência do acidente e aterragem violenta do avião corresponde a uma magistral utilização dos efeitos especiais) mas, no fundamental, dá-nos um filme de autor e actor (o que é de destacar após se ter dedicado por um longo período ao cinema de animação), onde o realce vai para as suas comprovadas qualidades enquanto realizador e para as de Washington enquanto actor que vale sempre a pena ver actuar.
Em causa parece estar a 'redenção' de William 'Whip' Whitaker, um piloto alcoólico que põe à prova, com sucesso, a sua destreza profissional ao efectuar uma manobra aparentemente (novamente as aparências...) impossível quando o avião que comanda ameaça despenhar-se, ceifando a vida a 102 pessoas. Whip, com a sua manobra arriscadíssima, apesar de ressacado de álcool e cocaína, consegue salvar 96, tornando-se um herói. Um herói no filme e também um herói para o espectador que, quando são efectuadas análises e começam a vir ao de cima as provas de que Whip não se encontrava em condições de pilotar um avião, hesita em 'torcer' para que se safe e achar que o guião deve encontrar um desfecho eticamente aceitável em que Whip seja penalizado por, irresponsavelmente, pilotar nas condições em que o faz. Até porque qualquer um de nós se arrisca a entrar num avião pilotado por alguém com a sua personalidade...
O avião pilotado por Whip avança para o abismo em resultado de uma falha mecânica. A vida dele também. Percebemo-lo logo na formidável sequência inicial em que Whip, deitado numa cama de hotel e enquadrado pela silhueta nua da actriz Nadine Velazquez , atende um telefonema da ex-mulher, 'snifa' cocaína. Disfarça o seu estado ao entrar, descontraído, no avião por detrás de uns óculos escuros. Enfrenta uma primeira turbulência com alguma desenvoltura. Bebe mais dois vodkas enquanto fala aos passageiros e lhes comunica que não haverá bebidas alcoólicas durante o voo após o susto inicial. E adormece até ser sobressaltado pelo início do que rapidamente se configura como um acidente fatal.
Julgamos estar definido o personagem mas não. Tudo isto apenas nos abre a janela para a complexidade da personalidade de Whip, para um drama muito bem narrado que não dispensa algum humor. Washington cumpre plenamente o desafio de incarnar o personagem de um viciado. E fá-lo com o mesmo à vontade com que Whip conduz aviões e a mesma dificuldade com que o piloto consegue lidar com a vida e os afectos. O argumento de Decisão de Risco centra-se nas qualidades e defeitos do seu protagonista, assumindo-se, intensamente, como um ´filme de actor', o que há muito tempo não acontecia em Hollywood, uma aposta de risco de Zemeckis que merecedora de óscares, já agora que estamos na época da sua 'colheita'. Não queremos com isto dizer que a realização de Zemeckis ou a interpretação de Washington devam ser coroados como os melhores do ano, até porque ainda não vimos a maior parte dos filmes nomeados. Mas caramba, quando uma imbecilidade como Les Miserables é favorita a uns tantos galardões...
Como é que um homem que assume, com aquela capacidade de decisão, o risco de evitar uma catástrofe anunciada se mostra incapaz de enfrentar os seus actos? Mesmo quando o sindicato desenvolve todos os esforços, mais ou menos ortodoxos, para o encobrir, Whip cisma em auto destruir-se. Não suporta que vasculhem o seu passado e, na verdade, só se sente bem na cabina de pilotagem. Zemeckis enfrenta de caras este enigma no plano final. A precederem os últimos créditos há somente a resposta que o piloto dá ao filho quando este lhe pergunta quem ele é afinal de contas: 'Não sei'.