
Capitão Phillips
(Nov 2013, publicado no semanário O País)
Uma abordagem, muito interessante, de um dos temas contemporâneos: a pirataria que ameaça os navios mercantes ao largo da Somália. Uma oportunidade para se confrontarem caracteres e motivações no meio de uma intensa pressão
Paul Greengrass, de créditos firmados no cinema de 'acção que faz pensar' nos dois filmes que dirigiu da série Jason Bournes - Supremacia (2004) e Ultimato (2007), pega num caso real e bem actual, a experiência do Capitão Richard Phillips, já vertida em livro - A Captain's Duty -, escrito em parceria com o jornalista Stephan Talty. O Capitão Phillips é feito refém de piratas somalis, em troca da liberdade da sua população.
O capitão Richard Philips, que comanda um navio porta-contentores de 17 mil toneladas, o Maersk Alabama, atacado por piratas em Abril de 2009, no Indico, a 500 quilómetros da costa somáli, é, no filme, Tom Hanks, que assegura brilhantemente a sua missão interpretativa. Greengrass constrói um thriller não só de permanente tensão psicológica e emocional, como de uma pressão insuportável, que nos é dada pela acção trepidante das novas câmaras miniatura.
Os piratas somális são piratas a sério, nada têm a ver com os simpáticos Piratas das Caraíbas faz delícias da ficção, e que, ao contrário dos piratas do passado, ganham a vida, não a roubar a carga dos navios que assaltam mas a pedir avultados resgates pela libertação da tripulação que sequestram. É claro que a história acaba mal para os somális, com a intervenção do aparato de guerra norte-americano e uma operação organizada por uma equipa SEAL (corpo de operações especiais da marinha norte-americana), resultando na morte de três piratas e da detenção do chefe somáli, Muse, que trava durante toda a narrativa um interessante diálogo com Phillips. É, aliás, no relacionamento que se estabelece entre estes dois homens, de universos tão distintos, que se centra a pulsão da narrativa. Phillips é um comandante atirado do mar para o xadrez político e tanto ele, como Muse, procuram corresponder com um sangue-frio profissional a situações que os ultrapassam.
Capitão Phillips interroga os limites da nossa humanidade, como somos levados a fazer coisas que ultrapassam esses limites, interpela a capacidade de sobrevivência humana, até que ponto somos capazes de ir, num registo de 'realismo jornalístico' que dá prazer ver. Um filme de emoções fortes em que se fica a saber o drama efectivamente envolvido num acto de pirataria e no sequestro de uma população. Por desenvolvê-lo com um profissionalismo e um realismo assinaláveis este filme de Paul Greengrass merece figurar entre os filmes do ano e as interpretações do ano. Andamos em boa maré: fomos surpreendidos por Gravidade e agora Capitão Phillips traz-nos argumentos e um ritmo visual muito interessantes.