'Birdman'

Se o realizador mexicano Alejandro González Iñárritu não se tivesse fixado tanto em malabarismos formais, 'Birdman' poderia ser um excelente filme, tirando muito mais partido dos excelentes trunfos que apresenta

(Jan 2015, publicado no semanário O País)   

Riggan Thomson é um actor que procura reinventar a sua carreira e afirmar-se no palco da Brodway, em Nova Iorque. Riggan é perseguido pelo papel que o celebrizou, a versão cinematográfica de um herói da banda desenhada - o Homem-Pássaro ('Birdman'). Desesperada e desesperantemente, o actor tenta renascer das cinzas, mas não mais como pássaro. É sobre este eixo que roda o argumento do último filme do mexicano Alejandro González Iñárritu.

'Birdman', passa de Hollywood, onde o actor que agora procura reconhecimento como artista conquistou fama no papel de Homem-Pássaro, para a Brodway, onde monta e protagoniza uma peça na tentativa de obter reconhecimento artístico. Desenvolve-se entre o cínismo e o drama familiar, entre os dilemas de ego de Riggan e a sua dificuldade de lidar com as novas formas de exposição mediática. É um olhar acerado sobre a sociedade actual, a sua galopante 'massificação', a sua dificuldade em comportar o individualismo, a sua banalização tecnológica, que alimenta a banalização da comunicação.

'Birdman' tem de debater-se com um tempo em que a popularidade é 'viral', em que qualquer imbecil se converte em 'virtuoso' se disser ou fizer uns disparates na internet. O mau gosto popularizou-se como nunca. Um mundo em que Riggan se sente inseguro e vulnerável.

Embora tendo ganho estatuto na indústria cinematográfica, Iñárritu, um dos pilares da nova geração de cineastas mexicanos que conseguiu reconhecimento internacional, permite-se questionar as correntes dominantes na produção cinematográfica, com o predomínio do lançamento de blockbusters que têm exclusivamente como função entreter o grande público com o deslumbramento visual proporcionado pelos meios tecnológicos de que o cinema actualmente dispõe. Não é por acaso que o passado com que Riggan tenta romper é o de mais um super-herói exposto no grande ecrã.

Junte-se a isto a trama familiar que envolve o protagonista de 'Birdman' (um Michael Keaton, ex-Batman, numa excelente interpretação). Tem um relacionamento totalmente instável com a ex-mulher, protege uma filha afectivamente deslocada e lida com um agente que procura manter o 'realismo' no meio de situações delicadas e também, é claro, o lucro do empreendimento.

Só que a riqueza, tanto da estória principal como das ramificações do argumento, a força das personagens, a qualidade do elenco e da fotografia (assinada por Emmanuel Lubezki, vencedor de um Óscar, no último ano, pelo seu trabalho em 'Gravidade'), a banda sonora bem achada de apenas uma bateria, a capacidade em mudar de humor e de género (saltando, num ápice, da comédia para o drama), acabam por se perder na obsessão de Iñárritu em dar-nos um exercício formalmente brilhante daquela que é uma das suas imagens de marca: a utilização sistemática do 'plano-sequência', em que se sugere que a câmara nunca para, que tudo é filmado numa longuíssima sequência. A mesma técnica a que recorreu em 'Amor Cão', '21 Gramas', 'Babel').

Assim, a câmara persegue os personagens em intermináveis 'travellings' nos corredores do teatro, nos seus bastidores, nos camarins, nas ruas de Nova Iorque, secundarizando o aprofundamento das personagens e suas estórias e criando uma sensação de enorme cansaço. É que, comparado, por exemplo, com 'Amor Cão' ou 'Babel', 'Birdman' incorre num enorme equívoco. Nos dois filmes anteriores havia várias estórias que decorriam paralelamente, toda a narrativa se desenvolvia em mosaico, convergindo uma aparente desordem para um ponto comum. Em 'Birdman' a estória afunila-se e a insistência no plano-sequência torna-se um tanto claustrofóbica para o espectador. Riggan viu a sua carreira derrapar ao recusar fazer uma nova sequência da saga que o consagrara como 'Homem-Pássaro', Iñárritu limita as possibilidades de 'Birdman' ao fixar-se no plano-sequência.

A despeito do exagero formal de Iñárritu, 'Birdman', uma visão desencantada do 'sonho americano' e uma viagem à fragilidade humana que oscila entre o realismo e a fantasia, não é um mau filme. Vai mesmo muito bem lançado na conquista de prémios. Após ter aberto o 71.º Festival de Veneza, onde se estreou, 'Birdman' foi nomeado para sete Globos de Ouro e premiado por diversos círculos de críticos de cinema norte-americanos. E a interpretação de Michael Keaton é, de facto, excepcional, pelo que não admirará que venha a ser nomeada para os óscares deste ano. Só que esperávamos, depois de 'Babel', muito mais de Alejandro González Iñárritu. Muito mais.

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