
Agentes do Destino
(Mar 2011, publicado no semanário O País)
A partir de um conto de Philip K. Dick, George Nolfi coloca-nos perante a possibilidade de sobrepormos o livre-arbítrio ao nosso destino, fazendo por merecer todas as consequências de tamanha ousadia
Se cumprimos ou não um destino que nos é fixado e se temos ou não capacidade, ou melhor, se dispomos ou não de liberdade, de livre-arbítrio, para alterá-lo só se virá, porventura, a esclarecer quando decifrarmos outros enigmas absolutos como, por exemplo, o que precedeu o Big-Bang que originou o universo.
Philip K. Dick é um dos mais estimulantes romancistas contemporâneos. Com uma vida que nada teve de linear, notabilizou-se na ficção científica, tendo também produzido numerosos contos. Algumas das suas obras já foram adaptadas ao cinema e outras encontram-se em vias de o ser. Entre elas destacam-se Do Androids Dream of Electric Sheep? (de 1968), cuja tradução literal é "Os Andróides Sonham Com Carneiros Eléctricos?" e que passou para as telas com o nome de Blade Runner, essa obra-prima cinematográfica assinada por Ridley Scott, bem como os livros em que se basearam os interessantíssimos Relatório Minoritário, cuja transposição cinematográfica foi confiada à mestria de Steven Spielberg e Desafio Total, realizado por Paul Verhoeven,
The Adjustment Bureau, um dos contos de Dick, é um ensaio sobre o destino. Daí o seu título, bem achado, em português: Agentes do Destino. A realização é de um argumentista cheio de pergaminhos, George Nolfi, que conta no seu curriculo com os filmes que narram a popular saga de Jason Bourne e ainda Ocean's Twelve de Soderbergh, e se estreia agora como realizador.
Nolfi faz um filme surpreendente em que a ficção científica se conjuga, à perfeição, com um toque subtil de comédia romântica. Tem, como ponto de partida, um excelente conto, mas sabe dele tirar partido, tanto ao nível do argumento como da realização.
Abstraindo da justificação "histórica", demasiado simplista e pouco plausível, para a inflexível vigilância feita pelos guardiões do mapa do destino, Nolfi traz para as salas, com criatividade e eficácia, a delirante imaginação de Philip K. Dick. O labirinto contido no "segredo" das portas é delicioso e presta-se sobremaneira à linguagem cinematográfica, prestando-se a súbitas e sucessivas mudanças de atmosferas e planos, o que confere um ritmo fantástico à narrativa.
Somos cativos do nosso destino, do nosso "fado", não naquilo que a popular música urbana portuguesa contém de resignação, mas no que respeita à inexorabilidade do seu cumprimento? Até que ponto e como podemos contrariá-lo? Os dados foram mesmo, irreversivelmente, lançados?
É com este problema que se depara um candidato a senador do Estado de Nova Iorque, ao qual, vem-se a saber, estão reservados voos mais altos. Apaixona-se por uma bailarina e tal colide, a partir de um certo momento, com o que estaria previamente estabelecido no mapa do destino. Intrometem-se então na vida do promissor político uns estranhos personagens com a estrita incumbência de pôr termo ao romance. São eles os zeladores do mapa.
Se é mais que discutível, face às sucessivas provas dos factos, que haja uma "mão invisível" a garantir a perfeição de funcionamento dos mercados (tal só acontece no mundo teórico idealizado por Adam Smith) há menos argumentos para corroborar ou rejeitar a existência de uma "mão invisível" que comande a nossa vida, que trace, inapelavelmente, o nosso destino num mapa, o qual, para as quiromantes, vem contido na sina desenhada na nossa própria mão.
O conto de Dick e o filme de Nolfi associam a transcendência ao humor (a irredutível atracção de dois amantes é sistematicamente estorvada por enigmáticos, irritantes e também divertidos personangens munidos de chapelinho), colocando-nos não só perante a possibilidade de darmos a volta ao que nos está destinado, como também face às consequências de semelhante acto: a intersecção do nosso destino com o de outra pessoa pode inflectir radicamente a nossa missão, comprometer o nosso futuro.
É para evitar que tal aconteça que os Agentes do Destino se intrometem no romance do político David Norris (Matt Damon) com a bailarina Elise Sellas (Emily Blunt). Até que ponto o amor pode, ou deve, sobrepor-se à nossa realização, será o amor "menos" que a soma das partes?
Nolfi oferece-nos um ritmo narrativo empolgante, muito valorizado pelos desempenhos de Matt Damon (que bem conhece da "saga Bourne) e de Emily Blunt nos papéis principais. Constrói, enfim, um excelente filme em torno de mais um palpitante conto do mestre Philip K. Dick.