
A Teoria de Tudo
(Fev 2015, publicado no semanário O País)
Um filme sobre a vida de uma das mais brilhantes mentes contemporâneas, Stephen Hawking, também tornado um ícone pela sua capacidade de divulgação científica e pela doença dramática que o paralisou. A 'Teoria de Tudo' narra, com contenção, sobriedade e excelentes interpretações, o combate deste homem e da sua família pela felicidade e pelo conhecimento
Stephen William Hawking é considerado um dos mais brilhantes astrofísicos contemporâneos. Demonstrou que as singularidades espaço-tempo não são meras criações matemáticas mas uma característica genérica da relatividade geral. Demonstrou também que no Big Bang original foram formados mini buracos negros primordiais e, em 1974, que os buracos negros deveriam, termicamente, criar ou emitir partículas sub-atómicas.
Estes são temas científicos pouco acessíveis ao comum dos mortais. No entanto, Hawking mostrou-se um exímio divulgador científico, e o seu livro mais conhecido, 'Uma Breve História do Tempo', tornou-se best-seller, o que é tanto mais significativo quanto procura introduzir o leitor em temas complexos através de uma visão descomplicada. Mesmo assim, 'Uma Breve História do Tempo' não é para todos, o que confere ainda mais significado ao facto de ter figurado, em Maio de 1995, na lista do The Sunday Times, entre os mais vendidos durante 237 semanas a fio, acabando por constar do Guiness Book of Records.
Acontece que Hawking, além de fazer história na ciência e de ser um dos seus mais brilhantes divulgadores, com participações em filmes, séries e programas televisivos, é, ele próprio, a sua vida, uma história ímpar de resistência e coragem. É portador de uma impiedosa doença degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica, que paralisa os músculos sem, contudo, afectar a actividade cerebral. Quando lhe diagnosticaram a doença deram-lhe dois anos de vida. Conseguiu sobreviver-lhes e quando, posteriormente, uma pneumonia o forçou a uma traqueostomia, que o deixou sem voz, recorreu a um sofisticado aparelho que reproduzia numa (já celebrizada) voz um tanto metálica o que o cientista escrevia num computador. A imagem deste grande homem da ciência, sentado numa cadeira de rodas, cabeça inclinada e voz metálica, transmitindo saberes fascinantes sobre o Universo onde decorre a efémera viagem da vida, da nossa vida, tornou-se um ícone contemporâneo.
O filme de James Marsh (vencedor do Óscar de melhor documentário com 'O Equilibrista') é classicamente biográfico, enxuto, rigoroso, assentando em duas (pelo menos) grandes interpretações, não assumindo uma única vez o tom melodramático que a progressiva deterioração física de Hawking poderia sugerir a uma narrativa menos escrupulosa.
Partindo do momento da vida de Hawkings em que este já é um doutorando brilhante e conhece a futura mulher numa festa universitária, a estória acelera (num ápice Hawkins conhece a futura mulher, faz o doutoramento e casa) para a vida do casal, numa fase mais madura, em que os desafios que lhes são colocados pela doença degenerativa do cientista, os coloca perante um constante desafio à vontade de viver e à capacidade de superar o drama, por maior que ele seja.
E há decoro no modo como são abordadas situações mais delicadas, como uma complicada relação a três, ou a decisão ulterior de Hawking em trocar a mulher que amara, e possivelmente ainda amava, pela sua enfermeira. Os grandes afectos de Hawking, as pessoas que o envolvem, subordinam-se sempre à genialidade do cientista e ao percurso da sua obra. Que, no entanto, está mais indirectamente do que directamente presente. Um homem a quem foram dados dois anos de vida, sobreviveu até hoje iluminado pela vontade de indagar, de descobrir, de saber a equação fundamental que rege o Universo. O filme conta como viveu. A menção ao ateísmo do cientista não merece lugar especial. Sabe-se, aliás, que a mudança de posição sobre o Big-Bang e a expansão do Universo levou Hawking a 'moderar', o seu ateísmo.
E o facto de a narrativa assumir o olhar dos protagonistas desse drama singular e monumental, cheio de amor e de vontade de viver, que é a vida de William Hawking, confere uma importância especial às representações, não só a de Eddie Redmayne ('Os Miseráveis'), que faz um magistral Hawking (o figurinismo, acertadíssimo, vestiu-lhe roupa uns números acima para dar mais verisimilhança ao personagem), como a da primeira mulher, Jane Hawking, que dele não desistiu mesmo quando soube da doença que o atingia, interpretada por Felicity Jones ('O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro'), que tem também um notável desempenho, alimentando o 'papelão' de Felicity Jones. O filme assenta num formidável 'mano-a-mano' entre os dois actores. Aliás, o argumento de Anthony McCarten adapta a obra biográfica 'Travelling to Infinity: My Life with Stephen', onde Jane Wilde Hawking descreve os seus anos ao lado de Stephen.
O filme vai bem lançado para os prémios deste ano e, além das indicações para os Óscares, acaba receber um 'Bafta', assim se chamam os galardões do júri cinematográfico britânico, que dão normalmente indicações seguras para as consagrações feitas por Hollywood.