
A Regra do Silêncio
(Abr 2013, publicado no semanário O País)
Este é daqueles filmes imperdíveis. Robert Redford, actor e realizador, proporciona-nos uma grande reportagem sobre a nossa actualidade ao revisitar um grupo de esquerda norte-americano que contestou radicalmente o capitalismo nas décadas de 1969 e 1970
A Regra do Silêncio - The Company You Keep - assenta o seu excelente argumento (que exige, pela sua complexidade e multiplicidade de personagens e pormenores, uma grande concentração por parte do espectador) numa grande reportagem sobre os membros de um grupo, 'the Weather Underground', que, nas décadas de 1960 e 1970, quando África se entregava à luta pelas independências e os Estados Unidos se aventuravam numa aventura tão estúpida quanto brutal no Vietname, contestavam radicalmente a posição norte-americana no interior dos Estados Unidos, acabando por matar um segurança num assalto falhado a um banco. Trinta anos depois, um dos membros do grupo decide entregar-se às autoridades e a identidade de um outro é subitamente posta a descoberto por um jornalista que procura um 'furo' profissional e que acaba por ser o centro da narrativa. O jornalista parte no encalce, através do país, do membro que esteve prestes a denunciar, apesar das advertências do seu editor e das pressões do FBI, tornando-se o elemento central de uma narrativa que vai compondo um puzzle intrincado de antigos activistas de 'the Weather Underground' que entretanto se haviam tornado membros respeitados da sociedade. Porque o fizeram? Apenas porque, acossados pelo drama da morte do segurança, foram forçados a refugiar-se num disfarce que os protegesse da justiça, mantendo, no entanto, as ideias de revolta? Ou porque, conformados e resignados, decidiram não mais deixar a clandestinidade? Ou ainda porque, face à força e à capacidade que o capitalismo para assumir as mais surpreendentes metamorfoses, se limitaram a desistir?
Tudo começa quando Jim Grant (Robert Redford), um ex-activista de 'the Weather Underground' que passara a viver pacificamente como advogado que vive pacificamente com a sua filha de onze anos, Isabel (Jackie Evancho), se vê à beira de ser desmascarado por um persistente jornalista de um periódico local, Ben Shepard (Shia LaBeouf). Jim Grant põe-se em fuga pelo país, acossado pelo FBI e pelo repórter, e volta a contactar os seus ex-companheiros de grupo com o objectivo de reconstituir o que se passou realmente no assalto ao banco.Quer salvar o seu estatuto de pai. Quando no confronto com a sua ex-colega, ex-amante e a mãe da sua filha ela lhe diz que os dias que correm provavam, mais que nunca, que o grupo radical a que haviam pertencido tinha razão, ele secamente responde-lhe que não é essa a questão, que não lhe perdoa o ter abdicado dos afectos familiares. Uma sequência avassaladora, tal como a sequência que opõe Jim e o jornalista, em que cada um se confronta com a sua própria verdade. Shepard foi entretanto descobrindo, à medida que vai desfazendo a teia de segredos e ocultações dos membros do grupo, que a estória do assalto era diferente e que o grupo manteve por 30 anos uma mistificação dos factos.
Redford dirige uma obra que se assemelha mais a um grande clássico, na linha de Clint Eastwood, que a um thriller político, não deixando de nos lembrar o seu passado de actor e autor de filmes marcadamente políticos. É impossível esquecer a tradição da cinematografia liberal dos anos de 1970, em que emergem os vultos de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula, autores de filmes notáveis como Os Três Dias do Condor e Os Homens do Presidente e que Robert Redford protagonizou. A Regra do Silêncio vai contudo muito mais além, detendo-se em cada personagem, introduzindo urgentemente diálogos (e mesmo monólogos, como é o caso da ponta final da aula do ex-membro do grupo que se tornou um reconhecido professor) densos, sendo que tudo isto dá por vezes a impressão de que o filme 'é lento' sem que, no entanto, por um momento, a inteligência do guião deixe de captar a atenção e curiosidade do espectador. O argumento, da autoria de Lem Dobbs, adaptado do romance homónimo de Neil Gordon, é brilhante. A narrativa é sublinhada por uma excelente fotografia, que nos oferece grandes planos, campos e contra campos e tomadas de cima com paletas de cores de rara beleza. A banda sonora mostra uma adequação exemplar.
O elenco, de luxo, é, à partida, um dos pontos fortes do filme, reunindo uma plêiade rara de actores, a qual inclui os nomes de Susan Sarandon, Julie Christie, Brendan Gleeson, Richard Jenkins, Nick Nolte, Sam Elliott e Chris Cooper, Stanley Tucci e duas jovens actrizes francamente prometedoras: Anna Kendrick e Britt Marling. O actor e realizador Robert Redford sabe tirar proveito de cada um e fazer com que as suas contribuições constituam a prova provada que não há efeitos especiais que façam dispensar a representação.
A Regra do Silêncio faz, a propósito do destino de um grupo radical de tempos idos de que o FBI não se esqueceu, uma vertiginosa reflexão sobre a nossa actualidade, confrontando-a com uma das formas de contestação que passado recente suscitou. Fala-nos de ética, valores, filosofia e do que, no fundo, vale e do que já não vale a pena ser vivido. Estamos em presença de um grande filme.