A Boa Mentira

(Jun 2015, publicado no semanário O País)    

A Boa Mentira conta a odisseia de quatro meninos em fuga do inferno da guerra civil sudanesa e a estória da sua posterior reinserção social nos Estados Unidos. Um drama que nos lembra a maior catástrofe humanitária da história contemporânea

A Boa Mentira (The Good Lie) retrata, com base em factos reais, o drama dos refugiados sudaneses de uma das mais cruéis mas também mais hipocritamente ignoradas guerras contemporâneas. A guerra civil no Sudão ceifou centenas de milhares de vidas (mesmo as organizações humanitárias perderam a conta) e gerou mais de dois milhões de refugiados. O conflito, que se arrastou entre 1983 e 2005, entre o governo muçulmano e as milícias armadas por ele toleradas e as facções não muçulmanas baseadas no Sul do país, e também entre estas, originou autênticos genocídios na região de Darfur, no país marcado pela corrupção generalizada e pela escravidão.

O realizador canadiano Philippe Falardeau (de C'est pas moi, je le jure! e Congorama) conta, a partir de um argumento escrito por Margaret Nagle (de Boardwalk Empire e Warm Springs) e baseado numa estória verídica, a odisseia de quatro meninos fugidos ao inferno da guerra civil sudanesa o seu consequente refúgio nos Estados Unidos. Os próprios quatro actores principais contam-se entre os chamados 'meninos perdidos do Sudão'. Falardeau avançou para o projecto apoiado em dois 'pesos-pesados' da produção cinematográfica: Ron Howard (Rush, Cinderella Man) e o seu sócio Brian Grazer (Uma Mente Brilhante, Apollo 13).

Falardeau assume em pleno o drama da estória, quatro crianças que enfrentam o horror de um conflito, reflectido na sua travessia de um rio juncado de corpos com os perseguidores no encalce. A viagem dos meninos, únicos sobreviventes da sua aldeia chacinada, dá-nos a paisagem de um país devastado pela guerra, de um país em decomposição, em que cerca de 30 mil crianças se viram obrigadas a percorrer sozinhas o caminho em direcção a um campo de refugiados. Crianças de todas as idades, irmãos e irmãs, fizeram milhares de quilómetros a pé até alcançar abrigo seguro nos países vizinhos do Sudão.

Mamere e Theo, filhos do chefe de uma pequena aldeia no Sul do Sudão, contam-se entre essas 30 mil crianças. Quando um ataque das milícias destrói toda a aldeia e lhes mata os pais, Theo é forçado a liderar um grupo de jovens sobreviventes e levá-los para um lugar seguro. Nesse árduo percurso, vão encontrando outras crianças em fuga. Entre elas está Jeremiah, de 13 anos, um rapaz inteligente e destemido que os ajuda a chegar com vida ao campo de refugiados de Kakuma, no Quénia.

Alguns/algumas, dos 'lost boys/girls' conseguiram, anos mais tarde e graças ao esforço humanitário global, tentar a sua reintegração social nos Estados Unidos. Foi o que aconteceu a Mamere, Theo e Jeremiah. Ao chegarem a Kansas City, no Missouri, são recebidos por Carrie Davis, que foi incumbida de os ajudar a retomar as suas vidas. Para ela, esta será uma oportunidade de perceber como a generosidade e o despojamento podem fazer realmente a diferença na vida de alguém.

Os jovens refugiados fazem amigos mas vêem-se separados de Mamere, que vai para um outro Estado, e o choque de culturas é inevitável. A sua inserção na sociedade onde a mentira é algo banal é narrado por Falardeau com destreza e algum humor, evitando assim que a estória resvale para o melodrama. No final, será 'uma boa mentira' a confirmar o amor e a justiça fraterna. Há, no entanto, no filme, que é bem narrado e bem interpretado, algo de banal. Nos cenários sudaneses há bilhetes-postais a mais e fica-se depois com a sensação que Falardeau exagera na ligeireza com que trata alguns choques culturais, retirando-lhes densidade. O capítulo da integração dos protagonistas na sociedade norte-americana é narrado de um modo, por vezes, um tanto arrastado.

Mas Uma Boa Mentira não deixa por isso de ser um filme que se vê bem e que, não assumindo um tom documental, nos faz lembrar que o martírio da guerra civil sudanesa aconteceu e que o homem é mais que capaz das mais cruéis, absurdas e estúpidas brutalidades.

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