Júpiter, a ascenção do nosso tempo

(Fev 2015, publicado no semanário O País) 

Uma ópera espacial visualmente luxuosa e muito divertida dos irmãos Wachowski (de 'Matrix'), um filme delirante, atravessado por uma acção compulsiva que nos mexe com os sentidos e as emoções e que também traça, com sarcasmo, um futuro em que o tempo é a principal matéria-prima e a humanidade um simples recurso

Uma jovem empregada doméstica de Chicago, Estados Unidos, vê-se subitamente metida numa grande embrulhada intergaláctica. Através de uma reencarnação possibilitada por tecnologias de outros mundos é detentora de um legado disputado pela lógica industrial dos impérios que nos rodeiam e de que nós nos damos conta.

Transportada para um universo em que os seres humanos, nossos desconhecidos progenitores, convivem com alienígenas e seres bio-transformados, Júpiter Jones sabe que só pode contar com ela própria e com Caine Wise, um guerreiro interplanetário, geneticamente transformado, que a leva do planeta Terra para a proteger. A aventura de Júpiter Jones por outros planetas e poderes majestáticos e visualmente sumptuosos é uma viagem delirante e trepidante, com a acção a suceder-se a um ritmo alucinante. Uma ópera espacial que é um 'thriller' muito acelerado que nos leva, visualmente, para o plano dos sonhos ou da pura imaginação.

Depois de 'Matrix', um enigma para uma geração, impecavelmente consistente na sua estória, uma seta atirada à cabeça dos 'dread', e do fabuloso 'Cloud Atlas', certamente uma das obras subvalorizadas nos anais do cinema, e ainda de outras incursões menos bem-sucedidas, os irmãos Lana e Andy Wachowski lançam-se, em 'Ascensão de Júpiter' numa narrativa que não pretende, aparentemente, deixar grandes questões e que procura o divertimento espectacular, cenas de 'encher o olho' e são, de facto, mestres em manobrar a técnica cinematográfica. E o cinema não é suposto ser também isso? Solto, divertido, surpreendente, brincando com os nossos sentidos e emoções, plasticamente brilhante? É o que faz a dupla sem pretensões, mas em também se demitir de desenhar as referências do futuro. O 'tempo', por exemplo, tornou-se a principal commodity numa época em que os restantes segredos industriais e tecnológicos se tornaram moeda corrente. Um universo dominado pela Casa dos Abrasax, que querem 'extrair' os terráqueos para alimentar a sua eternidade. É o lucro que paga a eternidade. Os terráqueos, ainda em busca das suas origens, foram 'geneticamente plantados' na Terra por essa ordem que domina o universo apenas como recursos a explorar e utilizar mais tarde. Isso mesmo, os seres humanos são apenas recursos. Tal como nos nossos dias. Nesse futuro imaginado em 'A Ascensão de Júpiter', quem tem muito lucro e heranças tem também direito a uma vida de milhares de anos.

Em 'Matrix' a espécie humana (com excepção de uns acossados resistentes) desconhecia que vivia num mundo virtual em que as máquinas puxavam os cordelinhos. Em 'Ascenção de Júpiter' essa opacidade quanto aos comandos da sua existência mantém-se, excepto para Júpiter, é claro, apanhada no vórtice de circunstâncias intergalácticas especiais. Mas, desta vez, o que cerca e manipula a existência dos terráqueos é algo não máquinas e a narrativa não decorre numa cápsula claustrofóbica perseguida pela máquinas mas na infinitude de um espaço galáctico em explosões cromáticas.

Tudo isto é rodeado de um esplendor, de um nervo, que só está ao alcance dos manos Wachowski. Eles vivem apostados nos grandes espectáculos do século XXI e são, de facto, mestres no domínio dos actuais materiais cinematográficos - a computação gráfica é soberba, os cenários de rara beleza, a imagem requintada, os cenários um assombro, a fotografia raramente nos oferece um universo vazio, deslumbrando-nos com o brilho e densidade das imagens, a empolgante banda sonora de Michael Giacchino é uma decisiva mais-valia. Os actores, actualmente duas das mais famosas figuras de Hollywood, Mila Kunis, no papel de Jupiter Jones, e Channing Tatum, no papel de Caine, tem desempenhos difíceis e largamente compensadores.

Trata-se, afinal, de um 'blockbuster', caro mas bem elaborado, prova de que os autores, mesmo quando têm de estar de olho da bilheteria, não fazem concessões às suas convicções. Os irmãos Wachowski convocam abertamente não só parte do seu trabalho anterior (designadamente 'Matrix') como nos fazem recordar excertos célebres de clássicos do cinema. E o final é esplendoroso, afastando-se nas asas de um desejo tão especificamente humano. Uma 'space ópera' muito mais interessante, visualmente luxuosa e divertida. Pede-se muito mais de uma ida ao cinema?


Júpiter, a ascensão do nosso tempo

(Fev 2015, publicado no semanário O País)   

Uma ópera espacial visualmente luxuosa e muito divertida dos irmãos Wachowski (de 'Matrix'), um filme delirante, atravessado por uma acção compulsiva que nos mexe com os sentidos e as emoções e que também traça, com sarcasmo, um futuro em que o tempo é a principal matéria-prima e a humanidade um simples recurso

Uma jovem empregada doméstica de Chicago, Estados Unidos, vê-se subitamente metida numa grande embrulhada intergaláctica. Através de uma reencarnação possibilitada por tecnologias de outros mundos é detentora de um legado disputado pela lógica industrial dos impérios que nos rodeiam e de que nós nos damos conta.

Transportada para um universo em que os seres humanos, nossos desconhecidos progenitores, convivem com alienígenas e seres bio-transformados, Júpiter Jones sabe que só pode contar com ela própria e com Caine Wise, um guerreiro interplanetário, geneticamente transformado, que a leva do planeta Terra para a proteger. A aventura de Júpiter Jones por outros planetas e poderes majestáticos e visualmente sumptuosos é uma viagem delirante e trepidante, com a acção a suceder-se a um ritmo alucinante. Uma ópera espacial que é um 'thriller' muito acelerado que nos leva, visualmente, para o plano dos sonhos ou da pura imaginação.

Depois de 'Matrix', um enigma para uma geração, impecavelmente consistente na sua estória, uma seta atirada à cabeça dos 'dread', e do fabuloso 'Cloud Atlas', certamente uma das obras subvalorizadas nos anais do cinema, e ainda de outras incursões menos bem-sucedidas, os irmãos Lana e Andy Wachowski lançam-se, em 'Ascensão de Júpiter' numa narrativa que não pretende, aparentemente, deixar grandes questões e que procura o divertimento espectacular, cenas de 'encher o olho' e são, de facto, mestres em manobrar a técnica cinematográfica. E o cinema não é suposto ser também isso? Solto, divertido, surpreendente, brincando com os nossos sentidos e emoções, plasticamente brilhante? É o que faz a dupla sem pretensões, mas em também se demitir de desenhar as referências do futuro. O 'tempo', por exemplo, tornou-se a principal commodity numa época em que os restantes segredos industriais e tecnológicos se tornaram moeda corrente. Um universo dominado pela Casa dos Abrasax, que querem 'extrair' os terráqueos para alimentar a sua eternidade. É o lucro que paga a eternidade. Os terráqueos, ainda em busca das suas origens, foram 'geneticamente plantados' na Terra por essa ordem que domina o universo apenas como recursos a explorar e utilizar mais tarde. Isso mesmo, os seres humanos são apenas recursos. Tal como nos nossos dias. Nesse futuro imaginado em 'A Ascensão de Júpiter', quem tem muito lucro e heranças tem também direito a uma vida de milhares de anos.

Em 'Matrix' a espécie humana (com excepção de uns acossados resistentes) desconhecia que vivia num mundo virtual em que as máquinas puxavam os cordelinhos. Em 'Ascenção de Júpiter' essa opacidade quanto aos comandos da sua existência mantém-se, excepto para Júpiter, é claro, apanhada no vórtice de circunstâncias intergalácticas especiais. Mas, desta vez, o que cerca e manipula a existência dos terráqueos é algo não máquinas e a narrativa não decorre numa cápsula claustrofóbica perseguida pela máquinas mas na infinitude de um espaço galáctico em explosões cromáticas.

Tudo isto é rodeado de um esplendor, de um nervo, que só está ao alcance dos manos Wachowski. Eles vivem apostados nos grandes espectáculos do século XXI e são, de facto, mestres no domínio dos actuais materiais cinematográficos - a computação gráfica é soberba, os cenários de rara beleza, a imagem requintada, os cenários um assombro, a fotografia raramente nos oferece um universo vazio, deslumbrando-nos com o brilho e densidade das imagens, a empolgante banda sonora de Michael Giacchino é uma decisiva mais-valia. Os actores, actualmente duas das mais famosas figuras de Hollywood, Mila Kunis, no papel de Jupiter Jones, e Channing Tatum, no papel de Caine, tem desempenhos difíceis e largamente compensadores.

Trata-se, afinal, de um 'blockbuster', caro mas bem elaborado, prova de que os autores, mesmo quando têm de estar de olho da bilheteria, não fazem concessões às suas convicções. Os irmãos Wachowski convocam abertamente não só parte do seu trabalho anterior (designadamente 'Matrix') como nos fazem recordar excertos célebres de clássicos do cinema. E o final é esplendoroso, afastando-se nas asas de um desejo tão especificamente humano. Uma 'space ópera' muito mais interessante, visualmente luxuosa e divertida. Pede-se muito mais de uma ida ao cinema?

© 2021 Paulo Figueiredo. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora